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Aula de "desdemocracia"
*Janaína Pinto Barnaske
Quem acompanhou a votação que
deveria autorizar a devolução dos salários descontados indevidamente
dos professores, funcionários de escolas e policiais civis, entre
outros profissionais do funcionalismo público estadual pode
constatar claramente a prepotência e a arrogância com que a grande
maioria dos deputados da base governista tratam estes profissionais
que desempenham papéis tão importantes na sociedade gaúcha.
Como cidadã e educadora, esperava
presenciar em uma sessão da Assembleia Legislativa uma aula de
democracia através de um debate qualificado de nossos representantes
políticos, ou seja, esperava ouvir uma discussão em que seriam
alegadas razões pró e contra o veto. No entanto, em três dias o que
todas as pessoas presentes ouviram foram vários argumentos contra o
veto colocados pelos deputados de oposição do governo, (PT, PSB,
PSTU). Tivemos ainda o apoio de um deputado coerente do PMDB e de
outro do PTB. Entre tantos argumentos foi citado que, no caso do
magistério, os dias de greve foram recuperados posteriormente e,
portanto, deveriam ser pagos. Outro argumento utilizado foi o fato
de que a greve é um instrumento legal de que dispõe todas as
categorias profissionais para exigir seus direitos (lembrando que
historicamente alguns direitos já foram conquistados, como, por
exemplo, o décimo terceiro salário) e punir os trabalhadores
grevistas com desconto salarial seria uma atitude ditatorial do
governo. Outro argumento utilizado foi o de que votar a favor do
veto seria uma atitude incoerente de nossos deputados já que o fator
gerador da greve foi a tentativa da governadora de modificar o plano
de carreira dos professores em regime de urgência no final do ano
passado, atitude considerada um erro por 41 deputados que deram
apoio ao CPERS, votando pela retirada do regime de urgência do
projeto.
Após uma explanação de argumentos a
favor dos professores, infelizmente a incoerência predominou. Os
deputados de oposição convocaram os deputados da base a argumentar
os motivos pelos quais votariam pelo sim, mas estes últimos
mantiveram-se camuflados até o último momento. Realmente, para a
injustiça não há argumentos. Utilizaram o “argumento canetaço”.
Enfim, alguns POUCOS (três ou quatro) dos vinte e sete deputados
que votaram sim ao veto resolveram pronunciar-se. Tão absurdo quanto
trabalhar e não receber foram as declarações infelizes destes poucos
“corajosos”. Ao ouvir a declaração de um ilustre deputado da base do
governo de que verdadeira professora era a senhora sua mãe,
lembrei-me do orgulho que minha mãe sempre teve de mim por ter
conquistado com muito trabalho e luta meu diploma de habilitação em
Letras. Aprovada em um concurso público estadual, finalmente pude
colocar em prática o conhecimento adquirido na graduação. Mesmo
trabalhando quarenta horas semanais, ainda consigo conciliar um
curso de especialização, com o propósito único de qualificar minha
prática profissional e, consequentemente, dar minha contribuição
para a melhoria da qualidade de ensino deste estado. Fico pensando
em que sentido, eu, assim como muitos educadores ali presentes, com
sua história de luta e dedicação ao magistério, são menos
professores do que a senhora mãe do deputado.
Não menos arrogante e prepotente foi
a manifestação do deputado Paulo Odone que, pensando estar em um
estádio de futebol, pediu a aclamação de sua torcida favorável ao
veto composta por estagiários e Cargos em Comissão do governo que,
certamente, não terão o ponto cortado. Ao pronunciar-se declarou que
pagar o salário dos funcionários seria “um assistencialismo do
governo”. Ora, tamanho equívoco poderia ser evitado se este deputado
tivesse ouvido melhor seus mestres educadores, e talvez participado
efetivamente de alguma luta social. Confundir assistencialismo com
direito realmente é lamentável.
Por último, e não menos importante,
cabe ainda ressaltar a presença de um número expressivo de
estudantes de escolas públicas que apoiaram seus queridos e
competentes professores lutando por uma educação de qualidade e
pelos seus direitos, como uma grande demonstração de valorização
profissional, contrariando a declaração do deputado “da senhora sua
mãe” de que os profissionais ali presentes carregavam “ódio no
coração”.
Certamente, a
sociedade irá saber quem foi contra e quem foi a favor da educação.
Deixar de pagar o funcionalismo público de forma arbitrária, sem
argumento algum, demonstra mais uma vez que a Educação não é
prioridade deste governo estadual. Uma “opinião” sem argumento não
tem valor algum. Não convence ninguém e, nesse caso, não irá
convencer a sociedade.
*Professora de Língua Portuguesa e Literatura
Março de 2009

ENTRE CONDUTORES, PEDÁGIOS E MÁQUINAS
*César Augusto Nunes Pinto
Um jornal conhecido do Rio Grande do
Sul tem dado debate à educação com um título bonitinho: o X da
educação. Começo a estranhar que a palavra educação não apresenta a
letra X. Mas tudo bem, digamos que o X seja então para achar uma
alternativa correta para o problema da educação. É a proposta de um
debate, revela-se. Então são cinco ou meia dúzia de especialistas –
e jornalistas que repetem feito um ratinho de Skinner - que ganham
um espaço para falar que os professores não sabem ensinar e aí está
o fracasso na educação. São especialistas, mas sinceramente não vi
uma solução concreta.
E existem soluções concretas. O
governo federal apresentou o Enem, que esses especialistas e
jornalistas não tiveram em seu tempo e não enfatizam ser uma
solução; o livro didático do ensino médio, que esses especialistas e
jornalistas não ganhavam para levar para casa e também não
enfatizaram. Pouco enfatizaram também os resultados do Enem aqui no
Rio Grande do Sul. Aí, um deles disse que o fracasso escolar é
sustentado pelo sucesso dos cursinhos pré-vestibulares. E aqui
começa a metáfora (pois metáfora faz bem, para especialistas e não
especialistas).
Seria o mesmo que comparar um Fusca
77 quitado com um Palio 2009 financiado em 60 vezes. Os dois andam,
com certeza. Mas aquele que é mais novo e que há revisão de 7.500 em
7.500 vai ser de maior qualidade, é claro. Esqueceram apenas de um
detalhe: o motorista. Se o motorista for atento, em seu Fusca,
acreditar em seu carro, cuidá-lo, vai longe. E se pegar um Palio
2009, depois de um Fusca bem cuidado, terá facilidade para guiá-lo.
Mas... se colocarmos 60 fuscas num espaço pequeno, eles ficam
estacionados, não andam. E não adianta apenas o combustível Federal
estar disponível, o Estadual precisa expandir postos de gasolina – e
aditivada. Fazem muita coleta de gasolina e muita avaliação de
Fuscas, mas o combustível para ele andar deve ter ficado submerso,
em algum petróleo “escondido”.
Nas rodovias e ruas do ensino,
dirigindo o ônibus da educação está o professor. Tirou a carteira em
Universidades e Faculdades que alguns especialistas colocaram em
dúvida a qualidade de ensino. Pois bem. E aí aparece uma
oportunidade - Federal, é claro - de se qualificar uma BR
importantíssima para a condução: a BR salário. Com a reforma dessa
BR, o trânsito seria melhor, mais qualificado, é um asfalto que
chega e tampa muitos buracos deixados por grandes caminhões que
transportavam cargas pesadíssimas, mas que em nada contemplava o
motorista do ônibus. Mas eis que “uma empresa de pedágio” surge como
uma enchente a derrubar pontes já construídas e desmoronar morros
que pareciam fixos. E aí propõe reformas que não serão capazes de
consertar os buracos, pelo contrário, acabarão com o asfalto
construído e vão transformá-lo em uma estrada de chão.
Aquele que dirige o ônibus é quem
realmente sabe o caminho, pois tem a habilidade de dirigir por
esburacadas ruas e avenidas. Conhece. Dirige todos os dias ao
contrário de cinco ou seis condutores especialistas que se dizem
motoristas e que aparecem apenas por aparecer. Sim, há milhares de
motoristas de ônibus que conduzem e muito bem seu veículo. Claro que
acontecem acidentes, mas as rodovias esburacadas e a falta de
dinheiro para revisão dos ônibus tem sua parcela de culpa.
Então, colocar a
pergunta : Será que o motorista de ônibus não está sabendo
dirigir bem? não é correto. Apenas deixem ele dirigir, coloquem
ele em foco, em lugar de teorias. Em lugar de tirar as pontes das
BRS que ele precisa passar, coloquem mais sustentação. Ele é que
melhor sabe os melhores destinos, pois é quem guia e quem conduz.
Posso não ser um especialista, mas acredito ser um bom condutor,
como muitos.
*Professor da Língua Portuguesa e Literatura
Fevereiro de 2009

NÃO HÁ GUERRA NO ORIENTE MÉDIO
*Sandro Gonzaga
No momento em que escrevo este
artigo, a agressão israelense à Faixa de Gaza já está na sua segunda
semana. Utilizo o termo “agressão” em contraposição a outros mais
recorrentes, como “ofensiva”, por exemplo. Ora, ofensiva dá a
impressão de que há uma guerra e que os israelenses estão tomando a
dianteira no conflito. Pois reforço: não há, absolutamente, nenhum
conflito árabe-israelense, e muito menos palestino-israelense, na
região. As barbaridades que a mais de duas semanas adentram os lares
através da televisão não são os horrores da guerra secular que a
mídia vende com os mesmos escrúpulos com que vende o novo modelo de
telefone celular. Elas só podem ser classificadas como uma AGRESSÃO
indiscriminada a uma população que, desde a criação do Estado de
Israel em 1948, não tem sequer o direito a um Estado Nacional,
burguês, liberal, democrático, seja lá o que for. Não há como
classificar os ataques a escolas e hospitais, causando a morte de
centenas de civis, entre eles dezenas de crianças, de outra forma.
Dirão os analistas de Relações
Internacionais, políticos bem falantes e até mesmo identificados com
algum matiz esquerdista, ou simplesmente defensores do diálogo –
para não falar da ultradireita – que deve-se chegar a um acordo
entre Israel e Hamas. Evidente que este é um aspecto relevante para
qualquer tentativa de paz, mas não é nem de longe o mais importante.
Em primeiro lugar deve-se lembrar que as condições para o surgimento
do Hamas foram proporcionadas pelo próprio estado sionista, assim
como o Hezbollah e diversos outros grupos hostis a Israel na região.
Essas condições são conhecidas: bloqueio econômico, hostilidade
política e militar, perseguição racista etc.
Só para ficarmos com os dados
territoriais, lembro da partilha, completamente absurda, feita pelos
países vencedores da Segunda Guerra Mundial. Segundo ela, o
território da Palestina deveria ter a seguinte distribuição: 56%
deveria compor o estado de Israel, 43% destinado a um estado árabe
palestino, e 1% correspondente a Jerusalém que seria administrado
por órgãos internacionais. Sem pensar muito já se verifica uma grave
disparidade nesta distribuição, legal, que desconsiderava
solenemente o fato de que a maioria da população residente na região
até aquele momento era de árabes muçulmanos. Fosse apenas uma
compensação aos judeus por terem sofrido o que sofreram nas mãos do
nazismo, já seria um disparate. Mas as motivações do imperialismo
anglo-estadunidense eram ainda mais nefastas, pois a intenção foi
claramente a criação artificial de um estado títere na região.
Mas Israel não se contentou em
“usurpar legalmente” esse território. Declarou guerra aos árabes já
em 1948 e ocupou mais de 70% da região. Duas décadas depois anexou o
que faltava na guerra relâmpago dos seis dias, em 1967. Tudo isso
temperado por expulsão de casas, linchamentos, estupros e
assassinatos à miserável população palestina. Na década de setenta
os outros países árabes conseguiram uma espécie de correlação de
forças através da especulação econômica em torno do petróleo.
Entretanto, este fato acabou entregando a população palestina, que
não usufrui nem de Estado, e nem muito menos de reservas
petrolíferas, à exploração econômica e ao extensivo policiamento
militar autoritário de fazer inveja às SS nazistas. Os Guetos da
Cisjordânia e sobretudo da Faixa de Gaza, são fábricas de ódio,
social e historicamente justificado. Israel é o único responsável
pelo surgimento e crescimento do Hamas. O grupo palestino, que tem
inclusive respaldo político eleitoral da população, é fruto da
opressão sionista.
Além disso, as
desculpas esfarrapadas de Israel de que “a ofensiva” é uma resposta
aos ataques do Hamas não se sustenta na medida em que os mortos são
contados. As baixas palestinas beiram o primeiro milhar, enquanto
que as israelenses não chegam a 20 (contando os mortos por fogo
amigo). Isso sem falar nos mísseis de alta precisão que atingem
escolas e hospitais. Isso não é guerra. O que Israel vem cometendo
contra a população árabe, em especial a palestina, desde 1948,
chama-se genocídio e já passou da hora dessa questão ser tratada
nesses termos. A comunidade internacional, jornalistas, professores
e toda a pessoa que tiver o uso da palavra neste momento devem
imediatamente condenar a agressão israelense como crime de guerra e,
portanto, clamar para que seus responsáveis imediatos sejam julgados
e punidos como tal.
* Professor e
Historiador
Janeiro de 2009

SIM A MACHADO DE ASSIS
*Andressa Griebler da Silva
Em meados de dezembro li um artigo
em um importante jornal gaúcho, em que o colunista criticava a
minissérie da Globo, Capitu, e as homenagens que ocorreram
durante o ano de 2008 a Machado de Assis, considerando-as como
cansativas e desnecessárias. O colunista falou como se ler as obras
machadianas não fosse uma leitura interessante e, como se os alunos
só lessem os livros do autor quando obrigados pelos professores. Mas
não considerou que muita gente lê e gosta das obras de Machado de
Assis. Criticar a fase Romântica de Machado tudo bem, mas não
reconhecer o talento, e a importância de suas obras Realistas, que
tratam dos problemas sociais e psicológicos de ser humano,
considerando-as ultrapassadas, como se autor não fosse merecedor de
todas as homenagens que lhe foram feitas é demais, diria até mesmo
desrespeitoso.
Claro que esse ano a mídia chamou a atenção para o autor, afinal foi o
ano do centenário de falecimento do mestre, um dos maiores
escritores brasileiros, que veio da periferia, era mulato e gênio,
vencendo preconceitos através de sua capacidade artística, se
destacando entre autores brasileiros e estrangeiros, tão importante
quanto Shakespeare ou Dostoievski, é conhecido pelo mundo a fora, e
se alguns autores importantes não leram Machado, também podemos
dizer que existem muitos escritores importantes que não leram obras
estrangeiras reconhecidas pela literatura mundial.
As obras de Machado são maravilhosas, e maravilhosa foi também a
minissérie. A maioria das pessoas de meu convívio, que assistiram a
dramatização e leram a obra gostaram, e os que não leram ficaram
curiosíssimos para ler, e eu que li as obras de Machado, achei a
minissérie ótima e fiel à obra, o que nem sempre acontece com filmes
ou minisséries baseados em obras literárias. Nosso autor merecia e
merece ser prestigiado. Em uma seleção de contos da coleção “leitura
jovem” nomeada “contos da vida social” (Seleção de João Armando
Nicotti, Sergius e Pedro Gonzaga) encontramos Machado, junto com
outros artistas consagrados como Edgar Alan Poe, Tchekhov, Guy de
Maupassant, comprovando mais uma vez a sua atualidade e capacidade
artística, não deixando a desejar a nenhum escritor estrangeiro
reconhecido pelas letras.
Concluindo, Machado de Assis deve continuar sendo lido e homenageado,
pois é atual, brasileiro e ótimo, é lastimável que tal colunista não
pense assim.
*Professora da Rede Pública,
graduada em Língua Portuguesa e Literaturas da Língua Portuguesa
Janeiro de 2009

LOCAIS EM PORTUGAL
*Pedro Silva
Das nossas visitas pelo chamado
“Portugal Místico”, chegámos à conclusão que alguns locais pré e
proto-históricos, mesmo que longe da monumentalidade das construções
acima referidas, teriam forte interesse em figurar neste capítulo,
pelo facto de o autor ser português.
Assim,
decidimo-nos por uma breve viagem, pelas letras, a alguns locais,
esperando que possam, um dia figurar, nas rotas mundiais dos locais
misteriosos. Atente-se que o estilo utilizado é o descritivo, em tom
directo e na primeira pessoa.
1. Cromeleque dos Almendres
(Évora): “Considerado imóvel de interesse público desde 1974, é o
maior conjunto de menires estruturados da Península Ibérica, do
período Neolítico (V-IV milénio a.C.), composto por 92 menires de
diferentes dimensões e formatos – a população chama-lhe Alto das
Pedras Talhas.
De acordo com a placa informativa,
terá sido um monumento com funções religiosas e provavelmente também
um observatório astronómico primitivo.
De
acordo com Eduardo Amarante, em «Roteiro Megalítico – percurso
mágico em terras portuguesas», pp. 110-112, Publicações Quipu, o
Cromeleque dos Almendres situa-se na «serra de Montemuro. É um
monumento megalítico constituído por dois conjuntos de menires
dispostos em círculos concêntricos, com diferentes formas e
dimensões, alguns cilíndricos, outros esféricos e de aspecto
estelar.
Estes menires formaram dois recintos
erguidos em época diferentes, geminados e orientados segundo os
equinócios. O mais antigo definia-se por dois ou três círculos
concêntricos de monólitos de pequena dimensão, ao qual se associou
mais tarde, no lado ocidental, um outro composto por duas elipses
concêntricas com menires de grandes dimensões.
Mais tardiamente ambas as estruturas
sofreram assinaláveis modificações, tendo o recinto inicial sido
transformado numa espécie de átrio que orientaria e solenizaria os
rituais mágico-religiosos ali praticados. Um dos menires (o 57) tem
insculpidas 13 representações de báculos. O menir seguinte (o 58),
situado na extremidade norte do eixo mais pequeno do recinto,
mostra-nos 3 imagens solares radiadas.
Assim, este conjunto megalítico dos
Almendres estaria ligado às observações astronómicas e previsões
astrológicas, como também a cultos ligados à fecundidade.
Estes cultos são sugeridos pelo
falomorfismo de alguns dos menires presentes. O recinto terá sido
desactivado durante a época do Calcolítico».
Queria aproveitar para deixar
algumas, breves, impressões: toda esta zona de Évora, que a natureza
e a História dotaram com alguns monumentos fantásticos, deixa
transparecer a noção de que a sorte também se conquista, isto é, há
aqui um cuidado esmerado em manter tudo o que de bom possui e dar a
conhece-lo aos visitantes.”
2. Santuário de Panóias (Vila
Real): “Dou a palavra a um estudioso, no seu «Roteiro megalítico –
percurso mágico em terras portuguesas», pp. 35-36 (Publicações Quipu),
o Dr. Eduardo Amarante: «trata-se de um santuário ou recinto sagrado
localizado na freguesia de Vale de Nogueiras, Vila Real. É
constituído por rochas e enormes fragas de granito ao ar livre.
Contém inscrições e cavidades com finalidades rituais e iniciáticas.
As cavidades abertas em muitos penedos serviriam de bacias ou pias
para abluções sagradas.
Para algumas fragas subia-se
mediante escadarias de vários degraus talhados na rocha.
Manifestação da religiosidade pré-histórica, também designado por
‘Santuário Rupestre de Panóias’, é constituído por sete penedos
sobre os quais se realizavam cerimónias litúrgicas consagradas a
certas divindades, umas terrenas, outras plutónicas e outras
cósmicas, como por exemplo: Isís, Osíris, Ormuz, Ariman e Serápis».
Toda a visita é bastante agradável,
iniciando-se com um curto filme de alguns minutos, em que, traços
gerais, nos é explicado o que significa o santuário que iremos ver
de seguida. Depois, é partir à descoberta das inscrições nas pedras
e dos demais detalhes.
Uma inscrição,
entretanto desaparecida, rezaria assim: «Aos Deuses e Deusas deste
recinto sagrado. As vítimas sacrificam-se, matam-se neste lugar. As
vísceras queimam-se nas cavidades quadradas em frente. O sangue
verte-se aqui ao lado para as pequenas cavidades. Estabeleceu Gaius
C. Calpurnius Rufino, membro da ordem senatorial».Este testemunho
relaciona o santuário com o império romano, de finais do século II.”
Para terminar este artigo nada
melhor que deixar aqui as palavras de um dos autores portugueses que
mais apreciamos.
Poderíamos ser nós a deixar
impressões relativas ao nosso forte sentimento para com todos os
monumentos, de cariz lítico, mas optamos por dar a palavra a outro
autor, para não sermos acusados de falta de isenção.
Verdade seja dita que, temos passado
os últimos anos, nos chamados intervalos da escrita, a viajar por
Portugal, e norte de Espanha, procurando conhecer o que de mais
interessante existe ainda para ver, fotografando profusamente o que
resiste à erosão do tempo, para que, um dia mais tarde, os vindouros
possam vislumbrar locais de relevo que, infelizmente, não tardará
muito para que alguns deixem de existir fisicamente.
Confessamos: somos autênticos
apaixonados pela cultura megalítica. E tudo iremos fazer para dar a
conhecer aos leitores todos os locais que, por razões que se
pretendem com o mediatismo provocado pelas divisas monetárias de
retorno que determinados locais dão, não fazem parte dos roteiros de
viagem mais famosos.
Deste modo, a
citação que referimos acima é retirada do seu “Roteiro Megalítico:
percursos mágicos em terras portuguesas”, Publicações Quipu, página
11: “Poder-se-á perguntar: mas que importância têm estes achados?
Não serão apenas um montão de pedras e de terra, ou calhaus? Se nos
limitarmos simplesmente a ir em busca de algo físico, como meros
curiosos, é um facto que mais não veremos que «calhaus», um
amontoado de pedra sem estrutura lógica visível e, pior ainda, não
sentiremos nada de mágico (…) A verdade é que a compreensão desses
lugares não se limita ao nível do físico; antes passa,
fundamentalmente, pela intuição, pela capacidade de o homem captar a
essência das coisas, do lugar em si. E isso processa-se ao nível da
disponibilidade que o homem tem de, dentro de si, ir ao encontro da
Natureza. É necessário o homem abrir-se a um estado superior de
consciência e deixar-se levar pelo sentimento que desperta o meio
que o envolve”.
NOTA: Texto originalmente publicado na obra "Os Grandes Mistérios da
Humanidade",
Axcel
Books Editora (Rio de Janeiro, Brasil)
*Escritor
português
Novembro de 2008

CASTRO DA CÁRCODA
*Pedro Silva
De localização bem
facilitada, com estradas perfeitamente identificadas e preparadas
para o viajante, este castro localiza-se no Outeiro da Cárcoda, na
Estrada Municipal entre Carvalhais e Roçada. A Câmara Municipal de
São Pedro do Sul efectuou aqui um trabalho meritório e transformou
todo este espaço numa viagem pela história dos nossos antepassados.
Logo à entrada, após uma
subida ligeira de alguns metros, depara-se-nos um espectáculo visual
impressionante, com um enquadramento das casas de pedra numa encosta
polvilhada de verde e cinza (das rochas). Houve o cuidado de
reconstruir uma das pequenas habitações, de forma cuidada, dando ao
visitante a possibilidade de contactar com um mundo há muito
desaparecido.
Em uma delas, a meio da
encosta, temos a oportunidade de observar, então, a escassa altura
do interior da habitação, o tecto formado de um material similar a
palha apoiado nas traves de madeira. De formato circular, como a
grande maioria de todas as outras habitações que se estendem pela
colina (todas em estado bruto, ou seja, sem reconstrução), tem uma
minúscula porta de entrada e, a toda a volta, como era comum, o
típico banco, onde os habitantes se sentavam a descansar, ou a
discutir assuntos do dia-a-dia.
Como se pode observar em
tantos outros exemplares da cultura castreja, temos a colocação
estratégica das habitações perto umas das outras, num aproveitamento
do espaço disponível para a melhor posição defensiva. Existem
igualmente habitações de aspecto rectangular e, a toda a volta do
perímetro, uma muralha defensiva.
Num dos pontos mais
íngremes, lateralizando a zona habitacional propriamente dita,
encontramos aquilo que apenas podemos considerar como um santuário
proto-histórico, notando-se claramente as escavações efectuadas na
rocha, não só em termos de subida ao ponto mais alto, como rasgadas
no chão de pedra aberturas cuidadosamente talhadas, dando razão a
todos aqueles que falam na adoração das chamadas divindades ctónicas
– ou seja, que provêm dos interiores da natureza.
Curiosamente, é nas zonas
montanhosas das Beiras, e também em regiões como Minho e
Trás-os-Montes que a adoração às divindades das profundezas parece
revelar-se mais amiúde, visto que em locais como o Alentejo (famoso
pelas suas planícies a perder de vista), adorava-se, com mais
frequência, divindades relacionadas com o interior dos bosques e
afins.
Neste local de cariz
religioso (obviamente, que estamos a falar de uma consciência
pré-religiosa, tendo em conta aquilo que hoje em dúvida consideramos
como a fé e a religião), encontramos também uma espécie de tina –
que seria tumular? – e uma zona propícia aos muito apreciados
sacrifícios de animais aos deuses – ou quiçá a um só deus
(discute-se muito, entre os arqueólogos e demais investigadores, da
existência, na proto-história, de um misto de divindades em elevada
quantidade ou apenas de denominações diferentes para as divindades
indígenas mais conhecidas – Nabia, Cosus, Reva, Trebaruna e Banda).
Este parece-nos ser um
local muitíssimo interessante (ressalve-se o cuidado com que escolho
o adjectivo) para ser visitado. Parece-me, igualmente, bastante raro
haver a conjugação de dois factores – interesse na promoção dos
monumentos pré e proto-históricos e algo para mostrar em bom estado
de conservação –, o que engrandece, ainda mais, o panorama visual
que nos é oferecido. Está aberto a todos, sem cobrança de entrada
(pormenor igualmente raro…), bem localizado, bem identificado,
estrada arranjada para o automóvel nos guiar, enfim, todo um
conjunto de razões que justificam que este Castro seja,
efectivamente, um bom local para todo e qualquer viajante, e não
apenas para os estudiosos.
VILA CARDÍLIO
A descoberta das ruínas
romanas de Vila Cardílio foram, pessoalmente, motivo de grande
estupefacção. E porquê? Porque, apesar de estarem bem próximos da
minha área geográfica, nunca as tinha visitado e, ao deparar com uma
estrada preparada que nos leva da chamada “via rápida” até à entrada
principal do monumento e do cuidado extremo que a Câmara Municipal
de Torres Novas colocou na preservação do espaço, foram motivos de
alegria. Por defeito profissional, tenho tendência a hiper-valorizar
toda e qualquer pedrinha do solo trabalhada com alguma função.
Antes de embrenharmos pela
Vila Cardílio três breves notas: parabéns aos acessos rodoviários,
mas achamos necessitar de uma protecção superior, a toda a largura,
por causa da erosão que o clima naturalmente provoca e, por outro
lado, não sabemos até que ponto não serão necessárias novas
escavações ou se o trabalho foi dado efectivamente como concluído.
Do panfleto editado pelos
Serviços Culturais da Câmara Municipal de Torres Novas, há a
destacar a sua simplicidade, bom gosto e informação concisa mas
essencial. Nele sabemos que em 1963 se procedeu à escavação liderada
pelo famoso Afonso do Paço. É um local onde os mosaicos pululam um
pouco por todo o lado, dando uma vivacidade interessante ao local.
Concentremo-nos, para já,
nos mosaicos encontramos as espirais rodadas, que muitos consideram
como crenças pagãs ligadas ao facto de afastarem os espíritos
malignos, tratando-se de uma espécie de amuletos. Encontramos ainda
as suásticas, que derivam, naturalmente, da chamada roda solar, por
quebra da circunferência do círculo. Vislumbram-se também tricéfalos,
como símbolo do poder celestial.
Convém denotar que alguns
materiais recolhidos do interior desta villae romana encontram-se
recolhidos no museu. O estado de conservação de todo este local
impressiona o visitante, sabendo que a ocupação ter-se-á dado entre
o século I e IV da nossa era. A destacar ainda o cuidado com a
vegetação que cobre o interior e que o rodeia.
Em
termos arquitectónicos, através do folheto explicativo, de registar
o peristilo, naturalmente a área central de todo o conjunto, com
vestígios de doze colunas. Existe ainda um pequeno jardim, um poço,
e vestígios de habitação anterior à vila romana. Enfim, todo um
conjunto de motivos de interesse que não irão deixar o visitante
desanimado, antes pelo contrário.
*Escritor
português
Junho de 2008

EM DEFESA DA GESTÃO DEMOCRÁTICA
E DA ESCOLA PÚBLICA
*Ruy Guimarães
No último domingo, 16 de março, um
dia após uma importante paralisação nacional dos trabalhadores em
educação, o jornal Zero Hora estampou em duas páginas uma entrevista
com a Secretária de Estado da Educação do Rio Grande do Sul. Segundo
o jornalista responsável pela matéria, a Secretária Mariza Abreu
falou ao jornal na noite da 5.ª feira, 13, um dia antes da
mobilização do magistério. Não fosse a situação em que se encontra a
educação no Rio Grande do Sul, não causaria estranheza a total
ausência de menção à paralisação.
As referências ao desmonte da
educação gaúcha são unilaterais, bem na linha ideológica hegemônica
do pensamento único. O jornal que numa de suas peças de marketing
afirma ver a vida por todos os lados, na segunda-feira, 17, abriu
uma fresta de meia página para o lado de cá se manifestar,
dificultando o contraditório e o conseqüente esclarecimento do
leitor, ficando a impressão que os nossos argumentos são sempre os
mesmos, corporativistas e, portanto, insignificantes, desprezíveis.
O fato é que na entrevista a
Secretária volta a atacar as direções de escolas, pinçando uma ou
outra irregularidade, transformando-a em fenômeno geral a fim de
justificar a política vertical, autoritária e intervencionista do
governo Yeda.
É impressionante a desfaçatez com
que a ex-comunista e ex-dirigente do CPERS - Sindicato, Mariza
Abreu, elogia a política centralizada praticada pela SEC “no início
dos anos 60”, “quando o Rio Grande do Sul tinha a melhor qualidade
de educação no Brasil”. Política centralizadora que se caracterizava
de um lado por “um serviço de inspeção escolar” no “qual o inspetor
trabalhava na secretaria, na coordenadoria, mas visitava
periodicamente as escolas e verificava se os registros estavam
corretos e obedeciam à legislação”. O inspetor conferia, também, se
os registros dos diários de classe “estavam corretos e se os
conteúdos programáticos estavam sendo desenvolvidos adequadamente”.
A segunda característica daqueles tempos obscuros ao qual a
Secretária rasga elogios é a “prova final de cada série [que era]
elaborada na (grifo meu) Secretaria da Educação e
chegava às salas de aula em pacotes lacrados (...). Só que não era
para avaliar a escola, como a gente faz hoje [SAERS; Prova Brasil],
mas para avaliar o aluno”. Só faltou dizer que sente saudades das
aulas de Educação Moral e Cívica – EMC e Organização Social e
Política Brasileira – OSPB.
Ora, o que a Secretária propõe nas
entrelinhas ao elogiar o sistema aplicado pela ditadura militar, é o
retorno a um sistema verticalizado desde cima que, mesmo que
formalmente leve em consideração as diversidades culturais,
econômicas e sociais de cada comunidade, na prática engessará as
escolas em currículos “mínimos” pensados por burocratas da educação
que nunca entraram numa sala de aula ou, no mínimo, não o fazem há
anos. E, claro, um controle tipo “Grande Irmão” sobre as escolas.
Na entrevista, a Secretária Mariza
dá a entender ao leitor desavisado que as diretoras e os diretores
são tramposos mal-intencionados que fraudam listas de alunos para
obter mais verbas da autonomia financeira, como se estas fossem
dignas de escolas suecas ou suíças e não os trocados que são,
repassados com atraso e aos picotaços.
Não dá para esquecer que em 2007 a
Secretária já havia feito generalização semelhante ao dizer que
diretoras e diretores “escondiam” professores. Disse, também, que “é
verdade que está difícil dar aula, mas não posso tolerar gente que
não quer trabalhar”, generalizando uma irregularidade encontrada em
uma escola de Porto Alegre. Isto depois de afirmar em tom de deboche
que “o choro é livre”, por ocasião da manifestação das diretoras e
diretores contra a forma autoritária e sem critérios com que foram
feitos os remanejos de professores em 2007, desestruturando setores
fundamentais das escolas. Se a mantenedora sabe de irregularidades
dessa ordem e que, certamente, não são em número exagerado, por que
não instaura inspeção, preferindo fazer tábula rasa do conjunto das
escolas?
Sem temer ser tachado de paranóico e
adepto da teoria da conspiração, diria que a hipótese provável para
esta e outras coisas que estão acontecendo, não só no Rio Grande do
Sul, mas, também, por exemplo, em São Paulo, Minas Gerais e, até em
nível federal, é que passamos por um sério processo de minimalização
neoliberal do Estado, agora no setor da educação. Não é por acaso a
oposição meia-boca na Assembléia Legislativa no final de 2007 que
permitiu a aprovação açodada da Lei das Oscips, um importante passo
no processo de privatização dos serviços públicos. Também não é
casual o elogio do Ministro da Educação, Fernando Haddad à
Secretária Mariza e às suas colegas de São Paulo e Mato Grosso do
Sul. Lembremos que na revista Veja de 17 de outubro de 2007, numa
entrevista sugestivamente intitulada “Longe dos Dogmas”, o Ministro
Haddad, dentre outras pérolas, defendeu a meritocracia, dizendo que
“no novo sistema do MEC, as escolas que aparecerem no topo do
ranking nacional ganharão em autonomia financeira. (...) Com um bom
resultado, elas conquistarão o direito de gerenciar suas finanças.
Ficarão, enfim, mais independentes do estado – e acredito que assim
podem funcionar melhor. Mas precisam fazer por merecer o prêmio.”
Ou seja, a idéia é que, gradativamente, o Estado se afaste de sua
função de mantenedor da educação pública, passando às escolas “o
direito de gerenciar suas finanças”. E, com o Estado longe, fora,
poderão “funcionar melhor”. Em 18 de fevereiro deste ano, em matéria
da revista Época, o Ministro reafirmou suas convicções neoliberais
ao anunciar junto com o PDE – Plano de Desenvolvimento da Educação a
implantação de um plano de metas a ser cumprido pelas escolas.
Uma leitura mais acurada do
noticiário propositadamente fragmentado pode nos dar algumas
indicações dos nexos existentes entre as políticas locais e a do
governo federal. A defesa subliminar do Estado mínimo feita pelo
Ministro Haddad se conecta perfeitamente às Parcerias
Público-Privada – PPPs e à transferência gradual de setores de
serviços públicos e/ou escolas à administração de Organizações da
Sociedade Civil de Interesse Público – Oscips via projetos de
parcerias como vem sendo implementadas com algumas escolas gaúchas
no Projeto Jovem do Futuro, do Instituto Unibanco. A propósito, para
aqueles favoráveis às privatizações é importante lembrar que as
Oscips sobrevivem principalmente de repasses de verbas públicas.
Apenas a título de brevíssimo esclarecimento para quem não sabe o
que é Oscip, veja o que diz a organização empresarial Sebrae: “As
ONGS, que com a adoção da
Lei 9.790 provavelmente
passarão a ser ‘chamadas’ de OSCIP's, são entidades privadas atuando
em áreas típicas do setor público, e o interesse social que
despertam merece ser, eventualmente, financiado, pelo Estado ou pela
iniciativa privada, para que suportem iniciativas sem retorno
econômico. Para quem acredita em histórias da carochinha, é
recomendável assistir ao filme “Quanto vale ou é por quilo?”, de
Sérgio Bianchi, que trata das trampas, digo, das ações de “interesse
social” das ONGs/Oscips que as tornam merecedoras, “eventualmente”,
claro, do financiamento público ou, vá lá, privado.
A intenção manifesta pela Secretária
Mariza de intervir também no fazer pedagógico das escolas através do
currículo encontra guarida no MEC. Na entrevista a Veja, diz Haddad:
“(...) o Brasil terá mais chance de sucesso não só quando as aulas
tiverem um nível mais elevado, mas também quando o dogmatismo
(grifo meu) deixar de vez as salas de aula”. Para o Ministro, as
escolas, principalmente as públicas estão impregnadas do dogmatismo,
“de uma visão de mundo de uma velha esquerda”. Quem está no chão da
escola sabe muito bem que esta reflete as idiossincrasias da
sociedade abrangente e isto significa, hoje, infelizmente,
justamente o contrário do que sugere o Ministro.
Voltando à questão das listas de
alunos fantasmas, é preciso informar ao leitor leigo que se é
possível a sua existência, também é verdade que não se trata de
prática geral, podendo, em muitos casos ocorrerem pelas dificuldades
estruturais das escolas que devem ser providas de recursos materiais
e humanos pela mantenedora. Traduzindo, significa que dar um aluno
por evadido da escola, principalmente no ensino médio, demanda um
processo que vai do contato com a família do aluno infreqüente
reiteradamente por uma semana, passando pelo preenchimento da Ficha
de Comunicação de Aluno Infreqüente – Ficai, por encaminhamento ao
Conselho Tutelar (no caso de aluno menor de idade) podendo ir até ao
Ministério Público. E a maioria das escolas não tem SOE, SSE ou
mesmo secretários para dar agilidade a tais tarefas, ficando mais
este encargo nas mãos de diretoras e vices. Convém lembrar que em
2007, muitas escolas que tinham seus setores minimamente
estruturados, foram obrigadas a desativá-los para liberar as
professoras para salas de aulas. E, há anos, o Estado não promove
concurso para especialistas (SOE, SSE e Bibliotecas). Além disto, é
preciso salientar que no ensino médio, os professores, de um modo
geral vêem os alunos no máximo duas vezes por semana. Ora, um aluno
pode faltar todas as aulas de matemática da semana, por exemplo, e
freqüentar as demais disciplinas, o que não caracterizaria
infreqüência reiterada que justificasse o preenchimento de Ficai.
Não é menos verdade que muitos estudantes se matriculam para obter o
direito à passagem escolar e atestado para estágio. Resolvido isto,
desaparecem da escola ou freqüentam-na esporadicamente apenas para
manter o vínculo. Ora, a questão da passagem e do desemprego são
problemas econômico-sociais que se não foram criados pelo
neoliberalismo, com ele se aprofundam. A indústria do estágio se
proliferou de tal maneira que se tornou “mercado de trabalho”. É uma
praga neoliberal que precariza o trabalho, remunera mal e retira
direitos trabalhistas fundamentais da juventude.
Deste modo, é lamentável o tom de
ameaça que permeia a entrevista da Secretária Mariza. Inspeções
sempre existiram nas escolas e devem existir. É certo que escolas
não são ilhas. Elas fazem parte de uma rede hierarquicamente
organizada, com direitos e obrigações.
Todavia, há que se alertar para o
risco que corre o princípio da gestão democrática quando as palavras
e as ações concretas ganham o tom de ameaça. Ameaça não apenas aos
que cometem irregularidades de forma deliberada, mas àqueles que
mesmo agindo corretamente vêem-se jogados na vala comum. Senão,
vejamos o que foi escrito em Zero Hora do dia 17 de março: “A
informação de que o colégio [Júlio de Castilhos] é um exemplo de
deficiência na gestão das escolas públicas, revelada pela secretária
Estadual da Educação, Mariza Abreu, (...) deixou claro o descontrole
na gestão das escolas públicas do Estado. O problema levou a
secretaria a criar um projeto de fiscalização dos estabelecimentos
de ensino”.
A Lei 10576 (Lei da Gestão
Democrática) com suas alterações posteriores, reza em seu Artigo
1.º, inciso V, o preceito da garantia da descentralização do
processo educacional. O Artigo 2.º institui os estabelecimentos de
ensino “como órgãos relativamente autônomos, dotados de autonomia na
gestão administrativa, financeira e pedagógica, em consonância com a
legislação específica de cada setor”.
Com o atual governo, as escolas
estão perdendo até a autonomia na elaboração do calendário escolar,
que restringe, por exemplo, a utilização de sábados para atividades
letivas sob o argumento de que a freqüência é baixa nos sábados. Ou
seja, mais uma vez as medidas administrativas tomadas à distância,
desconhecendo a realidade de cada comunidade escolar.
É a gestão
democrática, a autonomia das escolas e a própria escola pública
provida e mantida pelo Estado que estão sob ataque.
*
Professor de História e diretor da
Escola Estadual de Ensino Médio Padre Reus
Março de 2008

POR QUE VOCÊ OUVE TANTA PORCARIA?
Artur Madruga*
Nelson Mota
está certo quando diz "meu ouvido não é penico". É tanta
mediocridade nas rádios, que, só agora me dei conta, ultimamente nem
tenho ouvido rádio. Com a televisão acontece a mesma coisa, salvando
algumas excessões. Fred 04, no texto "Por que você ouve tanta
porcaria?" (Alisson Avila, in
Revista Aplauso, Porto
Alegre, ano 3, nº 22, 2000), chama de "pacto da burrice nacional", o
fato de a mediocridade musical ter se generalizado nas emissoras.
Para justificar esta evidência, ele argumenta que "todos os
operadores culturais se vêem compelidos a atuar mediante
determinados parâmetros éticos e estéticos, cada vez mais rígidos,
estreitos, imediatos, rasteiros...para fazer com que o DINHEIRO
corra cada vez mais rápido e sempre na mesma direção".
Importantíssimo enfoque, se analisarmos o texto na sua íntegra e
observarmos que é isto, que o capitalismo sufocou a estética
cultural de um modo geral. Não só na música. Mas eu gostaria de
acrescentar que esta coisa toda, que há tempos me colocava uma pulga
atrás da orelha, não me parece estar isolada na importância do
capital em si, do dinheiro. Me preocupava o fato de não entender
direito o que acontecia com o meu "gosto musical", que não conseguia
se "adaptar" ao que eu ouvia nas estações de rádio, a ponto de não
mais conseguir ouvir rádio. Seria este um sinal de velhice? Meus
ouvidos teriam enferrujado e não conseguiam ouvir com prazer o novo?
Por que tanta riqueza musical da
MPB havia desaparecido?
Desconfiava disto que o texto expõem, mas cheguei a pensar que era
um exagero e chatice ficar achando isto ou aquilo, e que eu é que
deveria mudar, me atualizar. Mas, ao contrário, fico muito
satisfeito de ter lido o trabalho publicado pela revista APLAUSO,
porque descubro que não era imaginação, que eram fatos reais que
estavam escondidos: a repetição, o jabá, o circo, a falta de
escrúpulos, o sistema das rádios, o mercado, os gerenciadores da
música. Os depoimentos de
Katia Suman, Nelson
Mota,
Edu K, dj Claudinho
Pereira, Raul Albornoz,
Lobão, Eduardo Santos,
Flávio Bernardes e
Tutinha, entre outros,
são definidores. Um "levantar de véus", como diria
Darci Ribeiro
em seu ensaio O Óbvio, para descobrir outros véus a serem
descortinados. A velha "tetra". Mas, voltando ao que eu gostaria
realmente de acrescentar, e que havia concluído há alguns anos, se
refere a nossa Ditadura Militar. Vivi esta época, e lembro
perfeitamente das riquíssimas e provocadoras letras de
músicas, que faziam
crítica ao sistema, tentando driblar a censura governamental oficial
que existia.Até as peças teatrais deveriam ter o aval da censura
para poderem ir aos palcos. Só que os governos militares foram muito
"inteligentes", voltando a Darci Ribeiro, e conseguiram sufocar a
educação, a filosofia, a tudo que fosse possibilidade de pensamento
reflexivo. Pensar havia se tornado um crime. Lavaram as escolas e os
cérebros, retirando a "sujeira do refletir", com um programa e
planejamento infalíveis. Suprimiram todas as "liberdades",
engendraram pré-conceitos. Simplificaram a extraordinária
complexidade da vida. E tiveram sucesso. Eis o nosso panorama
musical medíocre de um povo mediocrizado, alienado, que tenta se
reconstruir. Luta contra o capitalismo dito "selvagem" e acha que
cultura é algo estranho, que está lá fora. Os discursos da "Esquina
Maldita", no encontro da Sarmento Leite com
Osvaldo Aranha, em Porto Alegre ( um dos poucos lugares à época da
ditadura que era permitido a estudantes escritores e intelectuais se
reunirem- e onde fiquei amigo de
Caio Fernando de Abreu-,
mesmo que suspeitos de serem "subversivos"), não foram suficientes
para prever que o caminho seria outro. Que, definitivamente,
havíamos perdido as nossas batalhas ideológicas.Para finalizar, acho
que a educação deverá fazer a "retroação", ou seja, voltar-se para a
música como parte da discussão do senso comum e construção do
pensamento crítico, cidadão.
*Professor e Escritor
Fevereiro / 2008

AO ENCONTRO OU DE ENCONTRO?
*César Augusto Nunes Pinto
Existe aquela música que um famoso
artista e que, em certa hora, diz: “Meu pensamento voa de encontro
ao seu, será que é sonho meu”. Sonoricamente, uma beleza, belo
trecho da canção. Porém, há nessa parte um dos mais lamentáveis
erros da gramática: ir de encontro é ir contra, diferentemente de
ir ao encontro, encontrar.
Após levantamento de corpus e
teorias não muito acadêmicos e significantes, eis a questão:
O que se tem percebido e sentido
neste ano de 2007, no Rio Grande do Sul, é ao encontro ou de
encontro à educação de qualidade? Minha resposta – e a de muitos:
de encontro. Argumento 1: as sardinhas não reclamam de serem unidas
e enlatadas da forma como são por duas razões: primeira, elas não
podem e não sabem falar, são sardinhas; segunda: são sardinhas
mortas. A-lu-nos não são sar-di-nhas. Argumento 2 Uma sardinha não
vai ao encontro de outra quando enlatada, vai de encontro. E quanto
mais sardinhas – para os que estão fora da lata – melhor. A-lu-nos e
pro-fes-so-res não são sar-di-nhas
E os professores, de encontro ou ao
encontro? Seria capaz de citar várias coisas que têm ido de
encontro: salário, qualificação, nomeação, valorização. Como pode o
professor ser esquecido, logo o formador, o educador, o construidor
de futuros?
Aquele que faz do ser um engenheiro,
médico, professor e governador para que possas melhorar algo errado
em algum espaço teu ou do mundo?
Ao encontro dos professores: essas
palavras, desenlatadas, que ficam livremente a rodear a alma
descontente de um professor.
*Professor de Português e
Literatura
Outubro /2007

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