Caiu outro trabalhador na luta (sem fim) pela terra.

Marisa Antunes Laureano*

Certa vez um homem, reagindo aos desmandos dos poderosos, previu um futuro diferente para seu povo, e na época ele disse: “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Grande transformação Antônio Conselheiro via em seus sonhos. Mudanças onde o povo, o trabalhador, aquele que vive do seu suor, ocuparia seu lugar de direito sobre o pedaço de terra que havia de conquistar.  Os usurpadores de terra cairiam e não mais ocupariam o poder. No entanto, junto a outros tantos brasileiros, ele tombou na terra que eles fizeram produzir e que sonharam seria o chão da liberdade.

Mais de cem anos depois que o Arraial de Canudos – terra daquele sonhador – foi destruído, os trabalhadores do Brasil ainda lutam para possuírem um pedaço de chão onde possam produzir. Esta luta difícil encontra as barreiras colocadas por grupos, herdeiros daqueles usurpadores, que ocupam os espaços de poder deste país.

A luta pela terra no Brasil começou quando portugueses para cá vieram em 1534 e dividiram nosso território entre os bajuladores do rei que foram chamados na época de donatários - capitães das terras hereditárias do Brasil. Passou de pai pra filho e assim vem até hoje. O latifúndio tem sua origem da usurpação feita aos povos indígenas. Naquela época o rei da França questionou a divisão de terras entre Portugal e Espanha e sugeriu que fosse revisto o testamento de Adão. Ironizando o fato de tanta terra ter um único dono. Podemos fazer o mesmo questionamento hoje. Para quem Adão deixou o planeta Terra? Eles, os latifundiários, se julgam os donos do Brasil e sempre tiveram o direito de matar. E hoje usa o poder público como jagunço, pois não é mais necessário contratar capanga já que a polícia militar faz este serviço. Matam trabalhadores em nome do latifúndio, ou melhor, em nome da manutenção do latifúndio.

O mais triste é que aquele que aperta o gatilho está atirando no semelhante, mais semelhante a ele. Pois não é com o grande fazendeiro que o soldado se assemelha, mas com aquele colono que está ali lutando pela divisão justa de terras. Ambos são trabalhadores que não são donos oficialmente de terra alguma. Vivem na dificuldade do dia-a-dia e não são ouvidos nas decisões superiores. Eles deveriam lutar lado a lado e não um contra o outro.  Mas pela posição de cada um neste sistema capitalista cada vez mais injusto a separação ocorre desta forma. Pobre matando pobre e rico rindo a toa. A toa?

20/11/2009

* Professora de História, Mestre em História e Especialista em Ensino de História da África

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