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Ousadia e sonho armado
Fábio Azambuja Marçal*
O mês de setembro é repleto de comemorações. Semana da
Pátria, Semana Farroupilha, são alguns dos festejos que destacam-se no
calendário. Um dos momentos políticos tensos, importantes e pouco
conhecidos na história brasileira ocorreu estrategicamente em um desses
períodos de festividades. O Embaixador dos Estados Unidos da América,
Charles Elbrick, foi seqüestrado, no dia 4 de setembro de 1969, em terras
brasileiras.
Um seqüestro político e único na história. Nunca existira
tamanho atrevimento. Logo o Embaixador da principal potência do planeta?
Tudo ocorrera no auge da Ditadura, em meio a torturas, perseguições,
mortes e desaparecimentos. Organizações de esquerda resolveram seqüestrar
um dos símbolos do regime que amassava os brasileiros. Os EUA sempre
estimularam, apoiaram e lucraram com as Ditaduras de Segurança Nacional
que varreram o Cone Sul entre os anos 60 e 70. Os militantes exigiam a
leitura de um manifesto, escrito por eles, em cadeia nacional de rádio e
televisão e a troca do Embaixador por 15 presos políticos que eram
submetidos a barbárie dos porões da Ditadura.
Os grupos que realizaram o seqüestro – Movimento
Revolucionário 8 de outubro, MR8 (data que faz referência ao assassinato
de Che Guevara, em 1967), e Ação de Libertação Nacional, ALN -
representavam uma geração que tinha o sonho de viver em uma sociedade mais
justa. Pegavam em armas para derrubar a Ditadura e para construir um novo
mundo. Sonhos, armas e ação.
Seqüestraram para “melar” a semana em que a Ditadura pintava
e bordava seu ufanismo, que criava um mundo de mentira onde tudo era belo
no nosso país. A idéia do manifesto era ocupar os espaços da grande mídia,
e destacando algumas ocorrências que não eram publicadas, devido à
política de censura. No seu conteúdo, denunciava os crimes que o governo
cometia, e mostrava que existia alguém resistindo aos Ditadores. A troca
pretendia mostrar que os Ditadores não eram tão fortes quanto aparentavam.
Ainda, trocando, colocariam em liberdades lideranças políticas importantes
da esquerda brasileira.
A ousadia foi vitoriosa. O Manifesto foi lido e, no dia 8 de
setembro, os presos políticos pisaram em solo mexicano. O Embaixador foi
liberto na mesma data. A perseguição aos militantes que o seqüestraram foi
implacável. Muitos foram presos e alguns mortos pelo Estado Ditatorial.
Outros seqüestros vieram durante o período de confronto com a Ditadura
(foram seqüestrados os embaixadores do Japão, da Alemanha e da Suíça),
levados adiante pelos que não ser curvaram ao Regime.
Para avaliar a prática desses seqüestros, apóio-me na frase do jornalista
Flávio Tavares, um dos quinze presos trocados: “o seqüestro do
Embaixador Americano foi um gesto humanitário, nós iríamos morrer na
prisão. Era uma questão de dias e estaríamos mortos, devido às
brutalidades das torturas”.
20/11/2009
* Professor e Mestre em História,
Especialista em Movimento Estudantil e Ditadura
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