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A CÂMARA DOS VOLUNTÁRIOS
Fabiano Vaz*
De primeiro era diferente... Há no Arquivo
Histórico de Porto Alegre Moisés Velhinho um rico acervo sobre a capital e
suas freguesias, como Nossa Senhora da Conceição de Viamão. Entre os
documentos, destacam-se volumosos livros de atas que descrevem as seções
da Câmara de Vereadores da “Mui Leal e Valorosa Cidade de Porto Alegre”.
Leal e Valorosa foi um título atribuído pelo Império, reconhecendo a
lealdade de Porto Alegre, que não se entregou aos farroupilhas. Em meu
estágio por lá, dez anos atrás, tive a chance de transcrever as atas do
período de 1850 até a proclamação da república.
Com caligrafia impecável, os secretários
registravam as discussões, deferimentos, as “posturas” determinadas por
pessoas como o Sr. Baltazar de Oliveira Garcia, morador da zona norte. Os
vereadores tinham grande importância na administração municipal. Não havia
prefeito até a república, e todas as decisões passavam pela Câmara. Desde
a regulamentação para a venda de “líquidos espirituosos”, até a construção
do Mercado Público e do Teatro São Pedro, por exemplo, foram discutidas
pelos edis municipais. Não se pode negar a participação deles no
desenvolvimento e urbanização de Porto Alegre.
Entretanto, as atas das seções de posse
dos vereadores chamam atenção por uma peculiaridade intrigante. Grande
parte dos eleitos não tomava posse, alegando doença, e era comum que fosse
necessário chamar o terceiro ou quarto suplente para assumir o cargo. Ou
os políticos tinham uma saúde muito frágil, ou não faziam tanta questão de
compor a Câmara. É preciso conhecer o processo para tentar entender este
comportamento hoje inimaginável.
Conforme o período, eram escolhidos sete
ou nove cidadãos para formar a Câmara Municipal, onde serviriam a
municipalidade por um período de quatro anos, sem remuneração. Isso mesmo,
não havia salário para os vereadores. Também não havia ajuda de custos,
nem assessoria. O detalhe é que estes cidadãos não precisavam
necessariamente se candidatar, bastava que fossem indicados por outra
pessoa e votados à sua revelia. As possibilidades não eram muitas, já que
a maioria da população (mulheres, pobres, escravos) não podia votar nem
ser votada. Sobravam alguns grandes proprietário de terras, médicos,
comerciantes bem sucedidos. Seja qual for o motivo: doença, preguiça, não
remuneração, distância (alguns reclamavam ter de se deslocar de Viamão ou
outra freguesia), o fato é que muitos chegavam à seção solene de posse
para avisar que não assumiriam, inclusive com atestadinho médico na mão!
Lembrei-me de tudo isso ao ver com que
voracidade briga-se por uma cadeira na Câmara Municipal de Alvorada nos
dias de hoje. O resultado das últimas eleições está diretamente ligado a
quantias aviltantes de dinheiro. Não entro no mérito de como foi gasto
este dinheiro (imagino que na confecção de material de divulgação das
propostas!!), mas é fato que neste sufrágio valeu a proporção (+ grana
= + votos). Tudo isso para depois ficarem quatro anos nomeando ruas e
rendendo homenagens? Esperamos que não, assim como esperamos que tanto
investimento não signifique ambição de reembolso mais adiante. Afinal, o
cargo não é mais voluntário, mas continua sendo público!
02/11/2008
* Professor da Rede Pública e Especialista
em História Contemporânea
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