A violência contra os professores

Fabiano Vaz*

Ganham manchetes mais uma vez noticias de violência contra professores da rede estadual. Parece que há um gatilho (para usar um termo apropriado) que dispara nestes casos, trazendo à superfície o debate sobre as condições de trabalho nas escolas. É grande a comoção, muitos lamentam, todos procuram entender o que está havendo, a secretária estadual de educação diz estar “de cabelo em pé”, mastiga-se o assunto até que seja comodamente esquecido, para de novo dar lugar ao cotidiano de violências menos perceptíveis. Até a próxima manchete.

Nenhum educador pode se dizer surpreso com tais ataques, pois são muitos os sinais de  degradação do magistério e a situação tende a piorar. Os valores que um dia renderam respeitabilidade ao professor se perderam ao longo dos anos. Nossos adolescentes e mesmo as crianças vivem sob a banalização da violência, desconhecendo muitas vezes qualquer outra forma de linguagem.

Quem entende um pouco sobre história antiga vai compreender esta pequena metáfora: Os professores estudam e se preparam para lecionar sobre orações, equações, as ciências humanas e as artes, amantes da cultura e da retórica, como nas academias atenienses. Mas chegam à sala de aula e encontram um ambiente espartano, precisam resolver conflitos absolutamente irracionais para eles, baseados em costumes belicosos de espíritos muito mais afeitos à guerra.

Acuados, expostos, sob tensão permanente, estes profissionais precisam colocar os nervos no lugar a cada dia, a cada período, e recriar em seu ambiente de trabalho as condições necessárias ao aprendizado e, só então, nos minutos que restaram, exercer a atividade para o qual um dia resolveram dedicar a juventude se preparando e a vida trabalhando, muitas vezes em detrimento da família e da própria saúde.

O governo do Estado, “de cabelo em pé”, finge que não é com ele. Monta uma sindicância, envia à escola onde se passou o fato uma psicóloga, que também ficará “de cabelo em pé”, e nada resolverá. Porque obviamente o governo não se coloca como parte fundamental do problema, do processo de degradação do magistério. Não contabiliza a violência velada que impõe aos professores todos os dias.

Há alguns anos que precisamos reaver, através de causas trabalhistas, direitos como reposição salarial. Nosso dissídio é hoje decidido nos tribunais. O piso nacional do magistério é questionado pela governadora e nosso Plano de Carreira está ameaçado. A queda na qualidade da educação tem sido atribuída, pelas soluções apontadas, à má qualidade dos docentes, desconsiderando-se fatores externos, como exclusão social, desestruturação familiar, alto índice de transferências e a questão da droga.

Isso também é violência. Mas, para aqueles que acreditam que violência psicológica é manha, não custa lembrar a maneira como o governo costuma “dialogar” com os professores em manifestações e protestos.

07/04/2009

* Professor da Rede Pública e Especialista em História Contemporânea

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