Sucesso administrativo?

Fabiano Vaz*

Nas últimas semanas intensificou-se um discurso que, em meio ao forrobodó do Caixa 2, corre o risco de passar por verdadeiro. Trata-se da afirmação, por parte dos governistas, empresários e até da imprensa, de que o atual governo gaúcho é um sucesso administrativo, a despeito de “erros” políticos e da falta de transparência. Assim, tenta-se passar a imagem de que o projeto para o estado é bom, mas está sendo prejudicado pela falta de habilidade política e por continuadas denúncias de corrupção. Quem concordar com isso, concluirá rapidamente que é preciso substituir este governo por um outro mais hábil e, ao menos aparentemente, mais honesto, para que o bom projeto possa ser executado sem mais percalços. Tudo bem, não fosse um pequeno grande detalhe: o governo gaúcho não é um sucesso administrativo e o projeto para o Rio grande do Sul é péssimo sob vários aspectos.

O maior símbolo do falso discurso é o déficit zero, o ajuste das contas do estado. É preciso deixar claro que tal ajuste, além de fictício, só foi obtido a partir de cortes radicais em setores fundamentais como educação, saúde e segurança. Isso significa que o dinheiro do déficit foi retirado quase que diretamente de dentro das escolas, delegacias e outros órgãos. Os profissionais destas áreas estão se desdobrando para garantir os serviços com menos recursos e com menor efetivo de pessoal.

Aliás, a relação com os servidores estaduais, muito mais conflituosa do que o normal, é outro indício de que o projeto está longe de ser benéfico. O esboço para um novo Plano de Carreira, tendo o magistério como cobaia, tem sido apresentado à “sociedade” (leia-se Banco Mundial, FIERGS, Federasul, imprensa, professores, nessa ordem). Podemos imaginar que se o novo plano fosse trazer benefícios ao funcionalismo seria desnecessário apresentá-lo à “sociedade” em busca de apoio. Bastaria apresentá-lo aos sindicatos envolvidos e a votação na Assembléia seria tranqüila, todos ficariam satisfeitos. Mas não é assim.

O novo plano prevê perdas significativas para os trabalhadores. Chame-se da forma que for: benefícios, vantagens, bônus, adicionais, na verdade são dinheiro no bolso, que fará muita falta a quem recebe salários já tão baixos. A premiação por desempenho e cumprimentos de meta, outra proposta, é injusta por incentivar uma competição desigual entre trabalhadores de uma mesma categoria, em condições que são muito variáveis. E o próprio governo é o primeiro a descumprir as metas, ou seja, não oferece condições adequadas ao trabalho. Além disso, os aposentados sofrerão uma redução tão grande nos vencimentos que dificilmente poderão deixar de trabalhar.

Enfim, da promessa de campanha de fazer mais com menos, o governo tem cumprido metade. Faz menos com menos, como era de esperar a partir das leis matemáticas. É a mãe que tira de um filho para dar ao outro, sem resolver o problema. Não temos, portanto, um caso de sucesso administrativo. Temos sim um governo com um projeto neoliberal que, onde quer que tenha sido aplicado, deixou profundas marcas de desigualdade, com graves prejuízos principalmente às camadas mais pobres da população.

Resta saber se há corrupção neste governo, como apontam os vários indícios, mas isso depende de todo tipo de investigação possível, incluindo-se aí uma Comissão Parlamentar de Inquérito.

10/06/2009

* Professor da Rede Pública e Especialista em História Contemporânea

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