A PEDAGOGIA DA PENÚRIA

Fabiano Vaz*

Didática a forma como o governo estadual vem aplicando o “novo jeito” de administrar. Estamos aprendendo que o ensino público é um entre tantos serviços que custam dinheiro e que como tal, deve encontrar formas de economizar para o Tesouro. Por esta lógica, a sabedoria popular ficaria de recuperação.

Qualquer pai, assalariado ou sobrevivendo de bicos, sabe a importância da educação na vida dos filhos e faz sacrifícios no orçamento de forma a colocá-la como prioridade. Quando reduz custos, a lista do mercado sofre antes do material escolar, do calçado e do agasalho. Já o governo, ao colocar o repasse de verbas para as escolas no patamar de todos os outros gastos, reduzindo e fazendo reduzir, demonstra o quanto a área econômica está distante desta sensibilidade estratégica e social.

A festejada imagem de austeridade tem mostrado reflexos na parte mais fraca do elo, atingindo em cheio os estabelecimentos públicos de ensino, que vem recebendo 50% de um valor já insuficiente. É preciso compreender que administrar a coisa pública é algo um pouco mais sério do que administrar uma campanha eleitoral. Se as escolas não pagam o telefone, não se comunicam, se não pagam o gás, não oferecem merenda.

Além disso, a todas as secretarias e órgãos estaduais foram estipuladas metas idênticas de economia, o que representa uma falsa igualdade, pois aquelas que já funcionavam de forma enxuta acabam sacrificando a qualidade dos serviços.

Por outro lado, com a respeitável justificativa de atender prioritariamente as salas de aula, trazendo de volta educadores há muito distantes do magistério, muitas escolas estão funcionado sem os serviços de orientação e supervisão escolar, sem secretarias e com bibliotecas, coração e cérebro das escolas, fechadas aos alunos. Evidentemente que haveria de se fazer algo, mas nunca causando o desmonte de estruturas que vinham funcionando. A ausência de apoio pedagógico e da estrutura dos setores escolares significa um retrocesso de décadas na qualidade do ensino.

E o que falar da situação dos professores? Como o funcionalismo público gaúcho inteiro, vêm sendo humilhados com a constante ameaça de não receberem os salários em dia. Que profissional trabalha normalmente sem a certeza sagrada de que será retribuído? Experimentem pedir ao mecânico um conserto, dizendo-lhe que não sabe se poderá pagá-lo. Infelizmente, não saíram até agora em defesa do funcionalismo aqueles aguerridos grupos que costumam vociferar quando o assunto é aumento de impostos. Quanto ao sindicato, está ocupado discutindo a filiação à CUT.

Mantendo-se esta filosofia econômica, onde a educação não tem caráter estratégico e nem merece distinção em relação a outros serviços, os gaúchos podem começar a dar adeus à liderança nas avaliações nacionais, pois as nossas escolas públicas estão sendo destruídas por dentro e por fora, em seu corpo e espírito.

20/03/2007

* Professor da Rede Pública e Especialista em História Contemporânea

Imprima este artigo