ALVORADA: CATOLICISMO E COMUNISMO NOS ANOS 60

Fabiano Vaz*

Alvorada comemora 40 anos de emancipação. A melhor homenagem que podem render os historiadores alvoradenses, seja por nascimento ou por acolhimento, é pesquisar e divulgar as passagens históricas desta cidade. A História deste chão é composta por várias pequenas histórias, nem sempre relacionadas entre si, e não tem início em 1965, mas remonta ao final do século XVIII (parece que a real versão sobre os primeiros moradores será finalmente divulgada). Não faltam objetos de pesquisa histórica em Alvorada. Também não faltam historiadores, e a estes eu pergunto: Vamos deixar para pesquisadores de outros pagos contar a nossa história? Ou pediremos que jornalistas o façam? Acompanha esta provocação um pequeno exemplo do que pode render um olhar atento sobre documentos geralmente esquecidos em prateleiras alvoradenses.

O texto que segue representa o extrato da minha dissertação - O Padroeiro Operário, apresentada no curso de Pós-Graduação em História Contemporânea da FAPA. Trata de um tema tão curioso quanto pertinente: O que o comunismo tem a ver com a comunidade da paróquia São José Operário no início dos anos sessenta? A pergunta coloca o Passo do Feijó no mapa do Brasil em uma época em que a polarização Capitalismo X Comunismo, simbolizada pela Guerra Fria, mas de forma alguma nela resumida, agitava amplos setores da sociedade brasileira.

Em 1961 a cúpula da Igreja Católica brasileira, representada pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), mostrava-se preocupada, assim como diversos setores conservadores da sociedade, com um possível avanço do comunismo. O PCB trabalhava pela oficialização do partido, o que significava entre outras coisas a possibilidade da disputa de eleições. Não havia tempo a perder: o “Perigo Vermelho” precisava ser contido. Nesse sentido, a CNBB fez circular documento em que pede aos párocos que colhessem assinaturas contra a legalização do partido e remetessem direto ao presidente da República:

“‘Exmo. Sr. Presidente Jânio Quadros – Brasília: Os brasileiros abaixo-assinados apelam a V. Excia., para que não seja oficializado em nossa pátria o Partido Comunista, ateu e materialista, destruidor da auto-determinação das pessoas e dos povos livres e democráticos.’”[i]

No 3º Distrito de Viamão, futuro município de Alvorada, o padre Dirceu Antônio De Conto recebeu a nova incumbência, que somava-se à missão de organizar a paróquia de São José Operário, fundada pelo Pe. Léo Seidel, querido por todos e tragicamente morto em um acidente com seu motociclo. Não era tarefa simples para um jovem vigário (Pe. Dirceu comemorava o 4º ano de ordenação), nomeado em fevereiro de 1961 pelo Cardeal Dom Vicente Scherer, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre. Apesar de ter a paróquia lotada nas primeiras missas, Pe. Dirceu lamentava a concorrência com os campos de futebol, os bares e as ruas “regurgitando” de gente no mesmo horário. Os meses seguintes foram desanimadores. Menos comunhões, menos pessoas nas missas, a perda de fiéis para as “seitas protestantes”. Era este o clima em junho, quando Dirceu de Conto recebeu a circular sobre as listas. Querendo ou não, viu-se envolvido por assuntos aparentemente nada eclesiásticos. E não foi apenas isso. Em agosto o presidente Jânio Quadros renuncia ao mandato, gerando uma crise política em torno da sucessão. A Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola, exigia a posse do vice-presidente João Goulart. Na paróquia de São José Operário formou-se um comitê de Resistência Democrática, denominado Bento Gonçalves e secretariado pelo padre Dirceu.

A reflexão sobre a situação da paróquia em meio a tantos acontecimentos levou o vigário a redigir o documento que é ponto de partida para esta pesquisa. Trata-se de uma carta endereçada ao Arcebispo Metropolitano, em que relata pesaroso o “esfriamento” das atividades e a participação cada vez menor nos grupos internos da paróquia. Ele encerra a missiva de forma surpreendente:

“...Esta paróquia é medularmente operária e não fui capaz de dar aos paroquianos a orientação social da Igreja nos grandes problemas do trabalhador, de sorte que muitos não vêem maldade mas, antes, benefícios no comunismo.

Diante de tudo isto, Excelência Reverendíssima, venho pôr em vossas mãos o cargo que Vossa Excelência me confiou e estou inteiramente ao (...) dispor para qualquer trabalho. Creio que aqui o meu trabalho é contraproducente. No entretanto, se Vossa Excelência julgar que aqui é que devo servir a Deus, aqui cumprirei alegremente o “promitto” da ordenação.
Pede Vossa bênção vosso
Pe. Dirceu Antônio De Conto.”[ii]

Importa pouco aqui uma análise mais pormenorizada do documento acima. Esta pode ser encontrada no texto integral da dissertação. Interessa mais chamar atenção para as questões que se impõem a partir da leitura do documento: O que permite a conclusão de que a comunidade via benefícios no comunismo? Qual a opinião do Pe. Dirceu em relação ao comunismo? Há relação entre a carta e as listas contra o PCB? Seria uma justificativa para o não envio das listas ou para o envio de um número reduzido de assinaturas? Haveria realmente a intenção do pároco de deixar a paróquia? Ou ele pretendia permanecer, mas com maior liberdade para atuar junto à comunidade?

Não existem, no trabalho, respostas acabadas para tais questões. Apenas alguns dados que oferecem margem à reflexão.

Apesar de o chamado “alto clero” tender ao conservadorismo, muitos movimentos de base, assim como muitos clérigos, atuavam junto à suas comunidades a partir de uma orientação marcadamente progressista. Particularmente a Ação Católica exemplifica este fenômeno. Os registros dão conta de que o padre Dirceu mantinha relações bastante próximas com a JOC (Juventude Operária Católica), uma das várias subdivisões da Ação Católica. Fica clara ainda a utilização pelo padre na paróquia São José Operário do método revolucionário Ver, Julgar e Agir, proposto pela AC e que pregava a atuação a partir da realidade. Os setores conservadores sempre deram maior atenção às questões espirituais.

Por fim, não se pode ocultar o desfecho do episódio da carta ao Arcebispo, que de uma forma ou de outra relaciona-se com o que foi dito nos últimos parágrafos: O padre Dirceu de Conto não é removido da paróquia senão em 1965, após três anos e meio e inúmeras realizações.

Que os documentos, matéria-prima do historiador e que neste caso constituem fontes primárias inéditas, encerrem o presente texto, deixando que cada leitor colha suas próprias conclusões:

“Como despedida deixei meu agradecimento ao povo, aos paroquianos, pois neles eu aprendi a amar a Igreja, amar os pobres, amar a Cristo em todos. Sem demagogia, em verdade, creio que recebi mais do que dei. Pedi também perdão pelas faltas e, quiçá, pecados meus que tenham afastado as bênçãos de Deus sobre o povo. Ao Pe. Lauro Wittmann, bem-vindo.
Pe. Dirceu Antônio D. ”[iii]

 

“Foi profundamente lamentada a transferência de Pe. Dirceu, que, com sua bondade e profundo espírito de pobreza, encantou e conquistou a alma do povo. Ao Pe. Dirceu a paróquia deve, sobretudo, a penetração da Igreja nos meios mais pobres, a criação de um espírito de fraternidade e a intensa participação na liturgia.”[iv]

 


[i] LIVRO UNITAS – Boletim da Arquidiocese de Porto Alegre. Ano L – Setembro de 1961 – Fasc. 2-3. A data do documento é de 31 de maio de 1961.

[ii] Livro Tombo n.º 1. páginas 8b e 9a do. Dia 10 de outubro de 1961. Os grifos são meus.

[iii] Idem, verão de 1965.

[iv] Idem, fevereiro de 1965. Registro feito pelo vigário substituto.Idem, fevereiro de 1965. Registro feito pelo vigário substituto.

 

24/09/2005

* Professor da Rede Pública e Especialista em História Contemporânea

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