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DE ONDE VÊM AS MEDALHAS?
Fabiano Vaz*
A cada olimpíada ressurge a velha ladainha
motivada pela discreta presença do Brasil no quadro de medalhas. Muitos
são os palpites sobre as razões para o desempenho e as soluções apontadas
tomam como base os modelos adotados pelos países mais vitoriosos. Como
geralmente disputam os primeiros lugares um país capitalista e outro
socialista (este ano, como era previsto, EUA e China), o debate toma
contornos ideológicos e é inevitável que as sugestões sejam semelhantes às
que ouvimos para a economia, ou seja, maior ou menor participação do
Estado, estímulo à livre iniciativa, investimento maciço no
desenvolvimento do esporte amador em geral, ou aposta apenas nas
modalidades a qual somos “vocacionados”.
Entretanto, a maioria parece concordar em
pelo menos um aspecto: para que um país consiga atingir o nível de
“potência olímpica”, é fundamental a participação das escolas na base do
processo. O argumento é de que o incentivo ao esporte, a descoberta de
talentos, a formação de jovens atletas, a promoção de competições
escolares nos ajudaria a ter uma juventude mais saudável e o aumento do
número de atletas de alto rendimento seria conseqüência natural. Parece
razoável, embora não seja unânime, em Alvorada, por exemplo, há
especialistas que rejeitam a competição escolar, priorizando os jogos
cooperativos. Mas admitindo-se que as escolas públicas absorvam mais esse
papel e integrem um “projeto olímpico”, é preciso considerar algumas
questões estruturais.
A mais importante, ao meu ver, diz
respeito ao profissional encarregado da tarefa de selecionar e treinar os
alunos destacados. Hoje não há professores com carga horária destinada a
este tipo de projeto, o que sobrecarrega o professor de Educação Física e
prejudica o atendimento dos alunos que não estão nas seleções. Os
treinamentos deveriam ocorrer em turnos inversos aos das aulas normais,
que devem ser para todos e com outros objetivos pedagógicos. As escolas
que participam dos jogos escolares precisam se desdobrar para garantir as
aulas dos demais enquanto o professor acompanha a equipe, que por sua vez
não pôde treinar ou treinou pouco. Atribuir este trabalho de treinamento e
acompanhamento a um pai voluntário é temerário, pois este geralmente não é
profissional habilitado e não responde legalmente pelos outros alunos.
Há também o problema do material e do
espaço utilizado. Bolas para todas as modalidades, redes, pesos, discos,
tacos de largada, bastões, colchonetes e colchões, luvas, uniformes,
raquetes, quadras poliesportivas, pistas, caixas de salto, e muito mais
coisas seriam necessárias, acarretando um custo fora da realidade atual.
Muitas quadras das escolas em Alvorada estão em péssimas condições e são
utilizadas por mais de dois mil alunos toda semana. Ou seja, a estrutura é
precária para o dia-a-dia escolar, imagine-se para expandir o trabalho com
vistas à preparação de atletas de competição.
O que quero dizer é que as escolas não
estão ainda em condições de dar esta resposta à ânsia geral por “medalha,
medalha, medalha”, como dizia Mutley, o cão ajudante do Dick Vigarista.
Sabemos que não se faz as coisas senão aos poucos e com muito empenho e
boa vontade, mas é preciso um mínimo de planejamento e suporte. Até se
pode obter resultados sem muito dinheiro, como em Cuba, mas lá existe um
projeto que prioriza a educação e o esporte. No Brasil, as atribuições das
escolas já são muitas e as parcerias cada vez mais escassas. Além disso,
estamos longe do pódio da qualidade de ensino, e essa medalha ainda tem de
ser a nossa prioridade.
16/09/2008
* Professor da Rede Pública e Especialista
em História Contemporânea
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