|
LENDA, AINDA
Fabiano Vaz*
Retomo o assunto feliz
por saber que o texto Lenda para Alvorada, para quê? está
repercutindo dentro das escolas e honrado por ter merecido reflexão de um
dos melhores pensadores da SMED, o assessor Marcito Luz, que escreveu “A
Quem Interessa a Polêmica Sobre a Lenda Para Alvorada?”. Ouso dizer
que interessa a todos, uma vez que ajuda a divulgação do livro Lenda
para Alvorada, do jornalista Carlos Urbim e ao mesmo tempo antecipa um
debate necessário, na minha opinião, para que o livro seja melhor
trabalhado nas escolas. Há, porém, alguns pontos que devo comentar.
Primeiramente, em
relação ao próprio livro. Há uma defesa no sentido de que, sendo uma
lenda, estaria isenta de quaisquer compromissos com regras, convenções ou
técnicas literárias. Esteja a obra amparada na história, antropologia ou
na geografia, precisaríamos discutir o conceito de lenda e verificar que
este não se aplica ao caso, visto que esta história surgiu da invenção
solitária de um autor, e não da oralidade, do cancioneiro, ou das estórias
que se disseminam através das gerações. Socorro-me de João Simões Lopes
Neto, um dos maiores escritores gaúchos, que ao escrever Lendas do Sul
acrescentou graça e estilo às lendas que já existiam e eram contadas desde
muito.
Mas não podemos
resumir a crítica a um título mal colocado. É preciso deixar muito claro
que esse conto, indevidamente chamado de lenda, é uma narrativa fictícia e
que nada tem a ver com a história de Alvorada ou com seu folclore. Isto
não está evidente no livro e tem provocado confusões entre aqueles que
desconhecem a história alvoradense, entre eles o próprio Marcito, que
julgou que o objetivo central seria responder de onde teria vindo o nome
Alvorada. Quanto às outras críticas do texto anterior, mantenho todas,
robustecidas pelo apoio de várias professoras e professores que leram o
livro.
Agora, o segundo
ponto. O colega Marcito me “inclui” entre as exceções e diz que minhas
críticas originam-se de preocupações político-pedagógicas genuínas.
Entretanto, inicia e encerra o texto queixando-se de “orientações político
partidaristas” para combater todas as ações do governo. Some-se isso à
pergunta-título, fica bastante evidente que o assessor acredita que a
polêmica serve a interesses político partidaristas. Tal conclusão é
injusta e ofensiva, pois minhas preocupações político-pedagógicas não
apenas são genuínas, como são amparadas em dois anos de pesquisa sobre a
história e memória da cidade, que aprendi a respeitar e pretendo zelar.
História e memória são em qualquer lugar alicerces para as sociedades.
Quando os europeus partiram para dominar a África, além do uso da força,
trataram de confundir os africanos a respeito de sua história e memória.
Além disso, não pude
entender o motivo pela qual a questão da democracia foi levantada. Minha
crítica é uma manifestação legítima e democrática de um leitor que não
gostou de um livro e decidiu expressar isso, pormenorizando os porquês.
Ninguém foi obrigado a ler, nem tampouco o texto foi enviado a todas as
escolas através de Comunicação Interna. É preciso que se aprenda a
conviver com a crítica. Verificar os fundamentos, responder, como no caso
(C.I. nº474/08). Mas não dá para ficar nesse discurso de que “tudo o que
fazemos é detonado pela oposição mal intencionada”, e que as opiniões
contrárias são antidemocráticas. Temos acompanhado esse chororô
provinciano por parte de algumas autoridades locais e é lamentável ver que
estão ditando moda.
Nós, do site A
Trincheira, deixamos claro em nosso editorial o caráter da nossa
militância e, embora não seja imparcial, não é partidária. Tampouco somos
afeitos à crítica pela crítica. O livro Raízes de Alvorada, onde também
contribuímos como autores, foi um trabalho digno de elogios, e os elogios
foram feitos. Seguiremos dando nossa contribuição, mesmo em forma de
crítica, independente das forças que venham a ocupar os espaços
administrativos. Me parece algo bastante democrático.
10/05/2008
* Professor da Rede Pública e Especialista
em História Contemporânea

LENDA PARA ALVORADA: PARA
QUÊ?
Fabiano Vaz*
Após iniciar importante jornada em direção
à recuperação e respeito à sua história e memória, Alvorada acaba de dar
um grande salto atrás. O livro Lenda para Alvorada, do jornalista Carlos
Urbim, lançado no final do ano passado, poderia representar um belo
desdobramento do trabalho que resultou na publicação de Raízes de
Alvorada, em 2006. Voltado para o público infantil, poderia contribuir
para a difusão e valorização da cultura local entre os pequenos
alvoradenses. Infelizmente, a leitura da obra é desanimadora do ponto de
vista histórico e social, fazendo-nos questionar se realmente acrescenta
algo àquilo que já foi produzido, ou se faz o inverso, nos afastando de
nossas verdadeiras raízes. Sob vários aspectos, o trabalho é na melhor das
hipóteses polêmico.
A começar pelo título: Lenda para
Alvorada, e não Lenda de Alvorada, o que leva a crer que, na falta
de uma lenda, o jornalista achou por bem presentear a cidade com esta.
Ora, se Alvorada não tivesse nenhuma lenda, e tem, ainda assim não cairia
bem que se inventasse uma. Não sei quantos ou quais alvoradenses foram
consultados para a realização do livro, mas ainda não encontrei alguém que
reconheça a história como própria da cidade. Se levarmos a sério a
importância das lendas e mitos na construção do imaginário popular e da
identidade local, deveremos considerar o prejuízo em forjar-se este
folclore.
Outro problema é que a narrativa parte de
um pressuposto no mínimo discutível, que é o de que as terras da cidade
foram no passado habitadas por povos indígenas. Não há na literatura,
arqueologia ou tradição oral qualquer vestígio que sustente tal tese, como
é o caso de Gravataí. Aliás, Nossa Senhora da Aldeia dos Anjos de
Gravataí, como era chamada nos séculos passados, devido aos distintos
moradores.
Vamos ao texto. A suposta lenda tem como
protagonistas um casal de índios. Ele, um bravo guerreiro, porte
semelhante a um príncipe. Ela, uma índia que se destaca pela beleza e por
ser mais clara que as outras moças da tribo. Seu nome? Alva. O
significado, segundo qualquer dicionário: adj. Branca, clara.
A literatura infantil brasileira parecia
ter conseguido romper com estereótipos que associavam bom porte e bravura
aos membros da nobreza, e a beleza feminina à brancura da pele ou às
medidas do corpo (corpão de 1m 80cm, 90 de busto, 60 de cintura, 90 de
quadris, página 15). Me pergunto o que diria sobre isso Ana Maria Machado,
autora de Menina bonita do laço de fita, clássico sobre a
valorização e aceitação do negro. Além disso, as ilustrações apresentam
índios com indumentária ao estilo Pocahontas, bastante diverso do que
usavam os charruas, pampeanos, jês ou guaranis.
Na seqüência, descobrimos que esse belo
casal estava bastante apaixonado, tanto que “Foram gloriosas as noites em
que se amaram com o clarão da lua acariciando seus corpos” (Pág 9). Não
sou exatamente um conservador, mas questiono se essa seria uma linguagem
adequada ao público infantil, cada vez mais exposto a cenas e situações
que estimulam a sexualidade precoce. Que os especialistas se manifestem!
Mais não digo para não antecipar o
desfecho. Entretanto, imagino que qualquer semelhança com a saga da índia
Obirici seja mera coincidência. Espero que, no caso de o livro ser
distribuído nas nossas escolas, como é provável, já que é uma publicação
da prefeitura, os professores saibam trabalhar todas estas questões da
melhor forma possível, e que informem aos alunos que as lendas de Alvorada
existem sim, mas ainda estão por ser escritas.
16/03/2008
* Professor da Rede Pública e Especialista
em História Contemporânea
Imprima este artigo
|