LENDA PARA ALVORADA: PARA QUÊ?

Fabiano Vaz*

Após iniciar importante jornada em direção à recuperação e respeito à sua história e memória, Alvorada acaba de dar um grande salto atrás. O livro Lenda para Alvorada, do jornalista Carlos Urbim, lançado no final do ano passado, poderia representar um belo desdobramento do trabalho que resultou na publicação de Raízes de Alvorada, em 2006. Voltado para o público infantil, poderia contribuir para a difusão e valorização da cultura local entre os pequenos alvoradenses. Infelizmente, a leitura da obra é desanimadora do ponto de vista histórico e social, fazendo-nos questionar se realmente acrescenta algo àquilo que já foi produzido, ou se faz o inverso, nos afastando de nossas verdadeiras raízes. Sob vários aspectos, o trabalho é na melhor das hipóteses polêmico.

A começar pelo título: Lenda para Alvorada, e não Lenda de Alvorada, o que leva a crer que, na falta de uma lenda, o jornalista achou por bem presentear a cidade com esta. Ora, se Alvorada não tivesse nenhuma lenda, e tem, ainda assim não cairia bem que se inventasse uma. Não sei quantos ou quais alvoradenses foram consultados para a realização do livro, mas ainda não encontrei alguém que reconheça a história como própria da cidade. Se levarmos a sério a importância das lendas e mitos na construção do imaginário popular e da identidade local, deveremos considerar o prejuízo em forjar-se este folclore.

Outro problema é que a narrativa parte de um pressuposto no mínimo discutível, que é o de que as terras da cidade foram no passado habitadas por povos indígenas. Não há na literatura, arqueologia ou tradição oral qualquer vestígio que sustente tal tese, como é o caso de Gravataí. Aliás, Nossa Senhora da Aldeia dos Anjos de Gravataí, como era chamada nos séculos passados, devido aos distintos moradores.

Vamos ao texto. A suposta lenda tem como protagonistas um casal de índios. Ele, um bravo guerreiro, porte semelhante a um príncipe. Ela, uma índia que se destaca pela beleza e por ser mais clara que as outras moças da tribo. Seu nome? Alva. O significado, segundo qualquer dicionário: adj. Branca, clara.

A literatura infantil brasileira parecia ter conseguido romper com estereótipos que associavam bom porte e bravura aos membros da nobreza, e a beleza feminina à brancura da pele ou às medidas do corpo (corpão de 1m 80cm, 90 de busto, 60 de cintura, 90 de quadris, página 15). Me pergunto o que diria sobre isso Ana Maria Machado, autora de Menina bonita do laço de fita, clássico sobre a valorização e aceitação do negro. Além disso, as ilustrações apresentam índios com indumentária ao estilo Pocahontas, bastante diverso do que usavam os charruas, pampeanos, jês ou guaranis.

Na seqüência, descobrimos que esse belo casal estava bastante apaixonado, tanto que “Foram gloriosas as noites em que se amaram com o clarão da lua acariciando seus corpos” (Pág 9). Não sou exatamente um conservador, mas questiono se essa seria uma linguagem adequada ao público infantil, cada vez mais exposto a cenas e situações que estimulam a sexualidade precoce. Que os especialistas se manifestem!

Mais não digo para não antecipar o desfecho. Entretanto, imagino que qualquer semelhança com a saga da índia Obirici seja mera coincidência. Espero que, no caso de o livro ser distribuído nas nossas escolas, como é provável, já que é uma publicação da prefeitura, os professores saibam trabalhar todas estas questões da melhor forma possível, e que informem aos alunos que as lendas de Alvorada existem sim, mas ainda estão por ser escritas.

16/03/2008

* Professor da Rede Pública e Especialista em História Contemporânea

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