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A incrível greve que o governo inventou
Fabiano Vaz*
Escrevo com a honesta esperança de que,
quando este jornal chegar à rua, já se tenha terminado mais uma greve do
magistério gaúcho. Terá sido uma mobilização curta e de poucos ganhos
imediatos, mas cheia de significados para o futuro desta categoria que é,
junto aos policiais, uma das mais sacrificadas do estado. Mas o que levou
os professores a cruzar os braços, e quase ao final do ano letivo?
É importante frisar que a greve não esteve
em pauta até as vésperas da assembléia geral dos professores, dia 14 de
novembro. Ali se discutiriam as reivindicações a serem postas à mesa de
negociações com o governo para o ano que vem. Entretanto, uma situação
criada pelo governo alterou tudo e evidenciou que março de 2009 poderia
ser tarde demais para o magistério.
Há muito tempo que os professores do país
lutavam por uma lei que estabelecesse um salário mínimo, um piso nacional
digno para suas carreiras. Isto foi obtido este ano, e a Lei do Piso
Nacional deve entrar em vigor a partir de janeiro. Segundo a lei, os
professores devem receber um salário inicial básico de R$ 950,00 para uma
jornada de 40 horas semanais.
O governo estadual questiona a legalidade
deste piso e enviou à Assembléia Legislativa um piso “genérico” que, visto
de longe, parece com o nacional, mas guarda profundas diferenças. O valor
mínimo é idêntico, mas só chega-se a ele somando-se o salário básico com
todas as vantagens e benefícios que o professor recebe no contra-cheque.
Isto faria muito pouca diferença no bolso do trabalhador, tanto que a
própria Secretária de Educação admite que beneficiaria no máximo mil
professores, em um universo de quase noventa mil. Na verdade, o projeto
encaminhado achata os vencimentos do magistério. Dependendo do quanto o
profissional estudou, se aperfeiçoou, do tempo de serviço prestado, a
diferença entre o piso nacional e o estadual pode chegar a 100%.
O que mais dói são os argumentos
desastrados, ofensivos e contraditórios do governo, que diz que básico de
R$ 950,00 para professor é muito, enquanto propõe abonos de R$ 6 mil para
seus secretários de governo, que assim passam a receber mais de R$ 15 mil,
e falam em merecimento, capacidade e competência. Se isso não é chamar de
incompetentes aqueles que na ponta de baixo alfabetizaram e educaram estes
secretários e toda a sociedade, então não sei o que é.
Por outro lado, o piso não é a mais
importante das reivindicações. Está em elaboração o texto para um novo
plano de carreira para o magistério gaúcho, aos moldes dos estados de
Minas Gerais e São Paulo (é, aquele estado onde os alunos têm quebrado
escolas, professores e outros alunos). Pelo que já se sabe, este novo
plano deverá acabar com alguns direitos conquistados ao longo de muitos
anos, deixando os professores em situação ainda mais frágil. A luta é pelo
futuro da categoria, pelos que estão e por aqueles que irão chegar.
Por isso a greve. Para voltar às
atividades os professores pediram apenas que o projeto de piso estadual
fosse retirado, cumprindo-se a Lei Nacional, e que não fosse encaminhado
ou aprovado um plano de carreira que retire direitos assegurados.
A maioria dos deputados já é favorável ao
piso nacional, e a sociedade está se mostrando solidária à causa. Encerrar
a greve com vitória é muito importante para a auto-estima dos professores,
tão degradada por certas situações internas e externas à sala de aula.
Agora, se eu estiver
enganado, e a paralisação permanece, não resta senão responsabilizar o
governo por sua intransigência e insensibilidade. Ninguém deseja a greve,
ela é uma anomalia, causa transtornos e prejuízos a todos. Mas o governo
precisa entender que as coisas por aqui precisam ser muito bem debatidas,
e de forma democrática.
27/11/2008
* Professor da Rede Pública e Especialista
em História Contemporânea
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