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Um governo fora da lei
Fabiano Vaz*
O atual governo do estado demonstrou,
desde o começo, uma relação bastante peculiar com as leis em vigência.
Aquelas que lhe são favoráveis são seguidas à risca, e empunhadas como
defesa, enquanto que as desfavoráveis são ignoradas, questionadas ou
sofrem tentativas de alterações, até que fiquem ao gosto dos inquilinos do
Piratini.
Nós, professores, já sabemos disso há
tempo. A Lei do Piso Nacional para membros do magistério, aprovada
ano passado, jamais foi cumprida aqui, sendo questionada judicialmente.
Também a Lei de Gestão Democrática
é atacada, com uma proposta retrógrada de enfraquecer os Conselhos
Escolares. O princípio de autonomia das escolas é atingido na
medida em que o governo procura empurrar de cima para baixo desde novos
parâmetros curriculares até a forma de organização das jornadas
pedagógicas.
A proposta de alteração nos planos de
carreira é outro exemplo de que o governo rejeita as regras que não
lhe interessam. E rejeita a própria alteração, se não lhe for conveniente,
como no veto ao novo plano de carreira para os servidores da SUSEPE.
Detalhe: o veto se deu por inconformidade com uma emenda do deputado
Marchezan Jr. (PSDB)... partido do governo!!!
Na luta por garantia de direitos vemos ao
mesmo tempo o ataque à liberdade de expressão e até aos direitos
humanos, tendo virado rotina a reação violenta contra manifestações e
protestos. A última manifestação, em frente à casa da governadora, rendeu
uma nota de repúdio pelo ataque à liberdade de imprensa, assinada
pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS e pela Associação
Riograndense de Imprensa.
Além disso, por que não chamar de
assédio moral a forma como tem sido tratados os professores, chamados
de acomodados pela secretária da educação e de terroristas pela própria
governadora? Esta constante humilhação imposta aos profissionais não
constitui uma contravenção prevista em lei?
Vemos aí o caráter extremamente
autoritário de um governo que se apropria das leis de acordo com seus
interesses, interpretando obrigação como sugestão e sugestão como
obrigação, como foi o caso do corte no pagamento dos professores
grevistas, mesmo tendo eles recuperado a integralidade das aulas.
Não é, pois, surpreendente a reação às
denúncias feitas neste dia 05 pelo Ministério Público Federal, que
recomendou o afastamento da governadora e mais oito aliados por
improbidade administrativa. Acuado, o governo solta nota questionando o
trabalho do MPF, acusando de, entre outras coisas, manipular a população
com interesses políticos.
Tal reação é uma forma de abafar a
gravidade da situação. Não se tratam de simples suspeitas: o MPF
apresentou a conclusão de uma investigação que durou mais de ano, com
dezenas de milhares de áudios de escutas, depoimentos e documentos que
chegam a trinta volumes.
Que o governo estadual
pare com a choradeira e comece a se defender. Há muito o que explicar.
Quanto à Assembleia, mais do que uma CPI que investigue o que já foi
investigado, os deputados terão que considerar seriamente a possibilidade
de um processo de impeachment. Se este governo não cair, é mais uma lei
que será desobedecida: A Lei da Gravidade.
25/08/2009
* Professor da Rede Pública e Especialista
em História Contemporânea
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