HOMENAGEM A ÉRICO VERÍSSIMO 

Fabiano Vaz*

“Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão.

Agachado atrás dum muro, José Lírio preparava-se para a última corrida. Quantos passos dali até a igreja? Talvez uns dez ou doze, bem puxados. Recebera ordens para revezar o companheiro que estava de vigia no alto de uma das torres da Matriz. ‘Tte. Liroca – dissera-lhe o coronel, havia poucos minutos – suba pro alto do campanário e fique de olho firme no quintal do sobrado. Se alguém aparecer pra tirar água do poço, faça fogo sem piedade.’

José Lírio olhava a rua. Dez passos até a igreja. Mas quantos passos até a morte? Talvez cinco... ou dois. Havia um atirador infernal na água-furtada do Sobrado, à espreita dos imprudentes que se aventurassem a cruzar a praça ou alguma rua a descoberto.”[i]

 

Muitos já devem ter identificado aqui as linhas iniciais de uma das maiores epopéias da literatura. Assim começa O Tempo e o Vento, do aniversariante Érico Veríssimo. É difícil para um leitor comum prestar a justa homenagem pela passagem do centenário deste autor tão importante para o Brasil, e em especial para o Rio Grande do Sul. Os especialistas têm dito quase tudo a respeito da sua vida e obra. Como é habitual nos grandes escritores, a obra de Veríssimo alimenta discussões na área da lingüística, história, psicologia, antropologia, e outras. Todos têm algo a dizer.

Diante disso optei por delimitar o foco, como sugerem os orientadores acadêmicos, e chamar atenção para apenas um pequeno detalhe na narrativa mais famosa do escritor de Cruz Alta: - Mas como inicia bem O Continente! Arrisco-me a ser acusado de ler apenas a primeira página, embora a intenção aqui seja justamente defender que os parágrafos transcritos acima funcionam como a isca perfeita, da qual não é possível se desvencilhar.

Pode parecer um exagero para os críticos literários, mas pessoalmente, reservo o trecho inicial de O Continente local ao lado de inícios antológicos como encontramos em Kafka ou em Gabriel Garcia Marques!

Quantos escritores conseguem nos arremessar direto para dentro da obra logo nas primeiras frases? Quantos nos aprisionam nela até o fim, ansiosos, preocupados com o destino das personagens como se fossem membros da família? José Lírio vai tentar? Vai conseguir? É apenas o começo! As próximas páginas carregam ainda dois, três séculos, e personagens que tornariam-se tão ilustres quanto nossos maiores vultos históricos. E quem disse que não houve realmente "um certo Capitão Rodrigo"? E Ana Terra? Quantas e quantas, e ainda hoje? Mas o começo...

Iniciar bem um texto é quase tão importante quanto concluí-lo de forma hábil. É a porta de entrada, o primeiro passo, aquilo que primeiro contribui para a construção de alguma expectativa sobre a leitura.

Pensando nisso, espertamente fiz do início de O Continente o meu início (poderia transcrevê-lo no meio do texto, ou simplesmente não transcrevê-lo) e, se acaso venha a receber algum elogio, desde já agradeço a Érico Veríssimo.

Mas existe uma justificativa sem dúvida mais nobre para tal artimanha: o velho hábito dos professores de tentar estimular o interesse pela leitura nos estudantes. Há quem diga que este interesse deve ser espontâneo, mas não custa apresentar-lhes possibilidades. Iscas. Quem sabe alguém irá terminar de ler este texto e procurar uma biblioteca.

Se for assim... boa leitura!



[i] Primeiros parágrafos de O Continente, primeira parte da saga O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo.

 

15/11/2005

* Professor da Rede Pública e Especialista em História Contemporânea

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