Dúvida

Fabiano Vaz*

Alvorada acordou em dúvida, dia desses. Não uma dúvida mortal, existencial ou sentimental. Não. Uma indagação até bem singela. Aqui e ali, multiplicava-se na mente dos passantes a pergunta: quanto dinheiro público é gasto pela administração municipal em propaganda?

O questionamento ganhava força com o passar das horas, desmembrava-se nas situações rotineiras da cidade. Será que é mais do que se gasta com saúde? Será que é mais do que vai para a recuperação do Arroio Feijó? Será que rivaliza com o que é gasto na coleta de lixo? A pergunta ia e vinha, virava de ponta cabeça, do avesso e de trás pra frente, espalhava sementinhas que interrogavam: Será que esse recurso poderia ser usado para melhorar a merenda? Daria para pagar mais um médico? Mais dois? Talvez até abrir um posto de saúde? Uma praça, quem sabe? Seria suficiente para recolher os cães que vagueiam pela avenida? Outros perguntavam-se: será que é um valor adequado, comparável às outras prefeituras de cidades pobres?

Muitas incertezas foram estimuladas pelos cartazes colados em tapumes por jovens questionadores. Não se tratou de um ataque frontal ao governo, um “Fora Brum!”, uma denúncia infundada, uma acusação de corrupção, uma chamada às armas, uma proposta de boicote, nada. Sequer questionava o direito e dever do poder público de dar publicidade aos seus atos.

Como resultado, ao menos uma certeza sobreveio. A administração municipal tem condições de resolver problemas com agilidade e dinamismo impressionante. Na manhã seguinte, os cartazes haviam sido cuidadosamente arrancados, um a um, sem prejuízo algum para os outros cartazes que não faziam perguntas, apenas divulgavam bailes.

Os alvoradenses regozijam-se em saber que há competência e presteza na prefeitura, e aguardam a mesma agilidade na marcação das consultas, na distribuição de remédios, na substituição das lâmpadas, na coleta do lixo, na fiscalização das calçadas irregulares, na regularização das áreas, na oferta de infraestrutura, na conclusão das obras...

ENEM

Saiu o resultado do Exame Nacional do Ensino Médio 2008. As médias foram novamente muito baixas, aquém do mínimo esperado. Não serve de consolo ser o melhor entre os ruins, mas o Rio Grande do Sul teve, mais uma vez, a maior média entre as escolas públicas do país. Alcançamos média 42,12, à frente do Distrito Federal, 41,11, e Santa Catarina, 40,43. É claro que as estatísticas são sempre discutíveis, e conforme o uso, podem amparar qualquer discurso. Os próprios responsáveis pelas provas admitem que o nível de dificuldade pode variar de um ano para outro, alterando para mais ou para menos as médias, o que elimina até a possibilidade de os estados compararem-se a si mesmos.

Não se questiona que o ensino está em crise e muitas coisas precisam mudar. O problema é ver que o governo do estado insiste em promover reformas baseadas nas experiências de Minas Gerais, quarto lugar, 39,61, e São Paulo, sexto lugar, 39,02, para escolas públicas. Até a Estatística, essa mercenária, teria dificuldade para defender esse caminho.

À propósito, calculei a média das escolas públicas em Alvorada: 48,75.

 Fonte: Zero Hora, 04/05/2009, página 32.

12/05/2009

* Professor da Rede Pública e Especialista em História Contemporânea

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