A CRISE DO NOVO JEITO

Fabiano Vaz*

Virou rotina. Mais um escândalo, mais uma crise no núcleo do governo estadual, e mais uma solução tão cirúrgica quanto evasiva. Assim, de cabeça em cabeça cortada, o governo vai conseguindo se safar de responder por sua evidente responsabilidade sobre a corrupção institucionalizada no Rio Grande do Sul.

Com a divulgação das gravações de encontro entre o vice-governador Paulo Feijó e o secretário chefe da Casa Civil, Cézar Busatto, uma conversa sobre como as estatais gaúchas financiam os partidos que as controlam, que nada pode ser feito e que o melhor é aceitar, pois são esses partidos que dão sustentação ao governo, criou-se uma situação limite, um beco aparentemente sem saída. Não foi uma confissão pessoal do secretário, e sim um dos homens fortes do Piratini admitindo a existência de uma prática criminosa no centro do poder. Pode um governo permanecer em pé após isso?

Pode, pois foi mais uma vez acionada a estratégia da “degola”. Tal estratégia vem sendo usada pela governadora Yeda Crusius desde a campanha eleitoral, quando seu publicitário foi demitido. Passou pela mudança na Secretaria de Segurança, pelo afastamento de Ariosto Culau e agora mais um chefe da Casa Civil (o segundo ou terceiro em dois anos), além de uma porção de secretários. Se fosse possível, já teria sido aplicada ao vice-governador. Essa rotina costuma ser saudada pela imprensa, pois a governadora dá assim a impressão de ser implacável, ter pulso forte. Mas eu me pergunto: como alguém que escolhe tão mal seus parceiros, do publicitário ao próprio vice, pode pretender governar um estado? Desse jeito, até o final do mandato, metade da população gaúcha terá passado por alguma secretaria.

É clara a manobra para desvencilhar-se de aliados que a comprometem, ou por falarem demais, ou por saírem com suspeitos, ou por serem desequilibrados. Mas, como em um jogo de xadrez, os peões foram os primeiros, e já começam a cair as torres e bispos. A solução encontrada para preservar o rei (rainha, no caso?) foi derrubar o tabuleiro e começar do zero, mas existe no xadrez o sistema de notação, que reproduz cada um dos movimentos anteriores.

Temos muito a perder nesta crise e devemos estar muito atentos, pois no meio do furacão estão as estatais gaúchas, como o Banrisul, que não pertencem aos partidos e devem servir ao povo. Quando alguém diz que elas financiam os partidos, está falando do nosso dinheiro, nosso patrimônio desviado, enquanto enfrentamos filas enormes e encontramos caixas de auto-atendimento quebradas. Se prosperar a vontade do vice-governador, este caso grave servirá como pretexto para a privatização, para ele quase que uma obsessão. Por outro lado, se for bem sucedida a solução da governadora, teremos dado um passo lamentável em direção à total banalização da corrupção, do desvio do dinheiro público. A partir daí, salve-se quem puder.

25/06/2008

* Professor da Rede Pública e Especialista em História Contemporânea

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