O MENSALÃO E A REVOLUÇÃO DOS BICHOS 

Fabiano Vaz*

Antes de lançar “1984”, livro que teria inspirado a série Big Brother, George Orwell escreveu uma das obras mais polêmicas do pós-guerra. “A Revolução dos Bichos”, de 1945, é uma crítica feroz à burocracia e ao centralismo dirigente da União Soviética stalinista. E não trata-se de revanchismo capitalista. Orwell era conhecidamente socialista.

George Orwell conta a história de uma rebelião dos animais de uma fazenda, que descontentes com a exploração e o tratamento recebido, põem o fazendeiro para correr e assumem a administração do local. Tempos felizes viriam! A façanha foi comemorada com orgulho pelos vitoriosos!

Liderados pelos porcos, os mais inteligentes, os bichos logo perceberam que a revolução só poderia sustentar-se se os negócios da fazenda não fossem interrompidos. Passaram então a trabalhar ainda mais do que antes, animados pelo espírito revolucionário e empolgados pelos discursos inflamados do porco líder. Aumentaram a produção para mostrar a eficiência do novo sistema.

Os fazendeiros vizinhos perceberam as vantagens de negociar com os revolucionários, e estes foram adquirindo a mentalidade daqueles. Produtividade, sustentabilidade, lucros, passaram a ser as grandes preocupações dos animais líderes. Os outros bichos foram perdendo de vista os motivos que um dia os levaram à grande revolta.

Aos poucos, todos os porcos foram sendo favorecidos com cargos importantes, criados segundo as necessidades percebidas pelo porco líder. Esta classe dirigente foi conhecendo e se afeiçoando às estratégias comerciais usadas pelos humanos. Logo começaram a usufruir também dos privilégios, regalias e benesses garantidas pelo esforço da maioria. Qualquer tipo de reclamação ou menor sinal de oposição era prontamente abafada pelo balido das ovelhas, militantes obedientes. Um porco opositor acabou expulso. Os cães faziam a vigilância. Garantiam a "ordem" revolucionária.

Por fim os animais trabalhadores, pois que se recriou a divisão de classes, percebem atônitos as cada vez mais freqüentes confraternizações da elite intelectual, das quais eram excluídos para darem lugar aos velhos inimigos, os fazendeiros da vizinhança.

Meio século depois, a  fábula parece recontada de forma extremamente otimista, em “Baby, o porquinho atrapalhado”. Segundo o professor Dario, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS, Baby representaria a esquerda moderada, ou domesticada, pedindo uma oportunidade para mostrar que pode administrar o sistema de uma forma mais humana. Baby não é um revolucionário, é apenas um porquinho reformista que não concorda com os métodos agressivos dos cães. É amigo do fazendeiro, confia nele. E a estratégia fez escola. Importantes países da Europa elegeram a esquerda com discurso moderado e reformista, pregando um “capitalismo brando”, mais igualitário. Foram necessários em média dois mandatos atrapalhados para que o poder voltasse às mãos da direita.

No Brasil vimos a Carta ao Povo Brasileiro, as milionárias contas de publicidade, as comemorações com champanhe caríssimo, as reformas da previdência e trabalhista, os juros altos, o salário mínimo miserável, mas possível, a aproximação com os partidos tradicionais em nome de uma governabilidade duvidosa, a farta distribuição de cargos, o mensalão, o favorecimento em mão dupla em contratos e licitações. Lula é amigo dos fazendeiros, dos cães, do FMI, da OMC, do Bush, do luxo. Só não tem sido muito companheiro dos trabalhadores que o elegeram e que logo podem esquecer o por quê. As ovelhas já não têm o que balir.

Nosso presidente chegou ao poder ao melhor estilo Baby, mas governa uma revolução dos bichos. Só pode haver uma coisa pior: que o velho fazendeiro um dia retorne nos braços do povo!

24/07/2005

* Professor da Rede Pública e Especialista em História Contemporânea

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