E AGORA QUEM PODERÁ NOS DEFENDER? 

Fabiano Vaz*

Na grande novela da política nacional não há mocinhos, só vilões. Como que inspirados nos dramalhões latinos, que costumam facilitar ao máximo o entendimento para o telespectador, os nossos governantes vão além e criam um novo estilo: o drama unilateral.

Já faz tempo que as telenovelas apelam ao óbvio para atrair audiência. Os personagens são apresentados de forma que não reste dúvidas sobre quem é o bandido e o mocinho. Parece que o objetivo é que qualquer imbecil ou sujeito mentalmente preguiçoso possa acompanhar o enredo e torcer à vontade, sem medo de errar. É como se estivesse assistindo a uma partida de seu time. Já houve telenovela em que a vilã usava um tapa-olho ao estilo Capitão Gancho. Sem falar na hilária Nazaré, que não roubava doce de criança, levava a criança inteira. Os protagonistas são de uma pureza angelical, enquanto que os “malvados” são diabólicos, sádicos, desprezíveis. Nada de complexidades psicológicas. Poupam-nos do trabalho de raciocinar.

No cenário político, o estilo está sendo levado a sério, com a novidade do “drama unilateral”. Detentores dos mais altos cargos públicos não fazem questão de parecerem bonzinhos. Nem tentam nos ludibriar. São quase caricaturas.

O atual presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcante, por exemplo, não se constrange em se esforçar para elevar o próprio salário e de seus companheiros a índices escandalosos. Já conseguiu aumentar em muito as despesas com a Casa que dirige (que nós pagamos); vê com naturalidade a política da troca de favores; tenta chantagear o governo; emprega parentes como se o país fosse o pequeno armazém da família. E tudo às claras. Admite tudo. Faz porque pode. É como se a franqueza o eximisse de qualquer culpa.

E o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini? Parece ser o preferido para missões em que alguma maldade precisa ser feita. Quando ministro da Previdência, conseguiu aumentar a carga de trabalho dos funcionários públicos em vários anos, para que se aposentem mais próximos da morte, gerando economia. Obrigou idosos com mais de oitenta anos a apresentarem-se pessoalmente para provarem que ainda estão vivos. Com razão. É realmente surpreendente que algumas pessoas vivam mais de oitenta anos, considerando-se a qualidade da saúde pública e o tratamento dispensado aos idosos no Brasil. Agora, à frente do Ministério do Trabalho, pretende desestabilizar os sindicatos, enfraquecendo o poder de reação dos trabalhadores. Vai liderar a reforma trabalhista para flexibilizar as leis de trabalho (leia-se “permitir que os empresários contratem empregados pagando menos direitos”). Com este currículo, é eterno candidato ao “Troféu Malvadeza”.

Já o presidente Lula, que acha cedo para que uma mulher assuma a presidência da república, na verdade, considera cedo para que qualquer pessoa que não seja ele assuma o posto. Para se manter no poder, faz pactos com os mil diabos que sempre rondaram os altos escalões. Não esconde que é candidato à reeleição e já aventou, através de seus colaboradores, a possibilidade de estender o mandato presidencial em um ou dois anos (FHC precisou de dois mandatos para chamar de vagabundos aqueles que se aposentavam com cinqüenta anos).

Os governos federal e estadual fazem de tudo para aumentar a carga tributária para aqueles que recebem menos, enquanto é notório que o déficit que enfrentam vem da milionária sonegação das grandes empresas. São Robin Hoods às avessas: arrecadam em cima da pobreza para dar incentivos fiscais à mega empresas que empregam cada vez menos.

Nem as oposições se salvam. Dá para levar a sério as críticas de PFL e PSDB à política de juros ou as reformas realizadas pelo governo federal? Não vimos durante oito longos anos estes mesmos partidos fazendo exatamente o mesmo? Dá para levar a sério a oposição do PT gaúcho ao aumento dos impostos, enquanto o Planalto tenta espremer empresas de pequeno e médio porte? Francamente, se há oposição de verdade no país, é ínfima e logo a reforma política tratará de extingui-la.

Parece que só não há mocinhos nesta história. Mas é aí que está a grande inovação. Chegamos ao auge da facilidade. Supra-sumo da antipedagogia: todos são vilões, sem estresse.

Alguém dirá que criticar a política de forma generalizada é censo comum, além de ser perigoso para a democracia. Não pode haver “ser pensante” que defenda uma nova ditadura. Mas qual a vantagem de se preservar esta democracia, que além de restringir a participação, tem sido instrumento para o martírio e exploração, aumentando a fragilidade da “maioria silenciosa”? Precisamos é de uma nova democracia, como defendeu José Saramago em Porto Alegre no Fórum Social Mundial de 2005. Também não acho que o país precise de heróis. Não tivemos boas experiências com eles. Gostaria apenas que não fossem tão numerosos os vilões. Ou que pelo menos não agissem de forma articulada para fazer maldades.

Pelo menos nas novelas podemos torcer contra um inimigo de cada vez! 

 

09/04/2005

* Professor da Rede Pública e Especialista em História Contemporânea

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