Ele foi uma espécie de François Villon do
Blues. Como o poeta francês do século XV, Leadbelly foi acusado até
de homicídio e passou algumas temporadas na prisão. Mas soube transcender
a marginalidade graças à sua arte. Não foi apenas cantor e compositor de
Blues. Também interpretava canções de igreja, temas infantis, work-songs,
baladas folclóricas, canções de cowboy, canções populares e o que mais lhe
surgisse pela frente. Tocava piano, acordeão, gaita-de-boca, bandolim e
violão de seis cordas, mas seu instrumento principal era o violão de 12
cordas que descobriu no Texas e incorporou como acompanhamento vibrante –
com seus acordes rítmicos e figuras de baixo – ao canto áspero intercalado
de comentários falados.
Huddie Leadbetter,
mais conhecido como Leadbelly (“barriga de chumbo”), nasceu em
Mooringsport, Lousiana, em 1889. Aos dez anos ganhou de um tio uma espécie
de acordeão – um windjammer – e aos 13 anos já tocava nos bailes de
sábado. Aos 15 botou o pé na estrada e foi tentar a vida na cidade,
especificamente Dallas. Em 1917, foi condenado a 30 anos de prisão, mas
ficou seis anos, sete meses e oito dias. Em 1930, Leadbelly voltou
à prisão.
Mas a sorte finalmente chegou. John e Alan
Lomax,
pai e filho, eram obcecados caçadores-de-sons. Encontraram Leadbelly
na penitenciária de Angola. Um ano depois, ele deixava as grades e
tornava-se motorista de John Lomax, além de ajudar os Lomax em sua
pesquisa de campo. A carreira do ex-marginal de repente entrou em alta. Em
Nova Iorque, Leadbelly tocava para universitários e em clubes,
fazia programas de rádio e engajava-se em causas políticas trabalhistas de
esquerda.
Agradava, apesar de não fazer concessões:
“Nunca um branco foi capaz de fazer um Blues, porque não tem nada com
que se preocupar, não tem problemas do tamanho dos nossos.”
Uma coisa Leadbelly sempre admitiu:
a influência de Blind Lemon Jefferson.
Em 6 de dezembro de 1949, Huddie
Leadbetter morria no hospital de Bellevue, em Nova Iorque devido a uma
esclerose lateral amiotrófica, também conhecida como a doença de Lou
Gehrig.
No
início dos anos de 1960, ele foi revivido pelos jovens da canção folk. Em
1988, foi lançado um disco, A
Vision Shared,
espécie de tributo dos músicos jovens a Leadbelly. As gerações
passam, mas a força da música de Huddie Leadbelly permanece, com a
mesma vitalidade e urgência dos tempos heróicos do Blues na estrada.
05/07/2009
*Professor de História, músico e fanzineiro
Contato: tchedenilson@gmail.com
Ilustração: Alex Doeppre (Novo Hamburgo/RS)
Fonte: Blues, Da Lama a Fama (Editora 34)
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