|
BLUES: VIAGEM DA ALMA
Denilson Rosa dos Reis*
Parte
1: Origens
O
Blues tem sua origem entre os negros que foram trazidos da África para
atuarem como mão-de-obra escrava nas lavouras de algodão do Sul dos
Estados Unidos. Durante a labuta diária, assobiavam melodias
simplificadas – apenas cinco notas, chamadas de escala pentatônica –
para exprimir os sentimentos de suas almas: dor, lamentos, saudade...
Nesta época, não usavam nenhum instrumento, pois eles eram, por parte
dos brancos, associados à magia. Assim, a voz era o único instrumento.
Com
o fim da escravidão, mas não da segregação e da exclusão social,
muitos negros passaram a viver do Blues, como músicos em pequenas casas
noturnas, as jook joints,
verdadeiros barracões de madeira, numa mistura de casa de show, bar e
boate. Foi nesta época, início do século XX, que começaram as lendas
de bluesmens – homens do blues
– que vendiam sua alma ao demônio em troca de tocarem e comporem melhor
seus Blues. Lendas e mitos a parte, o certo é que o Blues deu origem ao
sofisticado Jazz e ao popular Rock’n’roll.
Neste
contexto, temos a primeira geração do Blues, ou Geração do Delta, em virtude do Blues ter nascido no Delta do rio
Yazoo, um dos braços do famoso rio Mississippi. Alguns bluesmens que destacaram-se: Leadbelly, Blind Lemon Jefferson, Big
Bill Broonzy, Robert Johnson – o homem da encruzilhada – e a Diva
Bessie Smith.
Parte
2: Da Lama a Fama
Com
o sucesso dos primeiros bluesmens,
logo veio a fama, alcançada pela chamada segunda geração do Blues, ou Geração
de Chicago. O Blues deixa de ser rural para se tornar urbano. Os
instrumentos acústicos aos poucos começam a ser substituídos pelos elétricos.
O violão vai dar lugar à guitarra e os palcos passam a ser mais
sofisticados deixando as jook joints
para a história.
Destacam-se
neste período: Howlin Wolf, Muddy Waters, Willie Dixon, John Lee Hooker,
T. Bone Walker e BB King.
Com
a popularidade do Rock e o culto ao Jazz, o Blues entrou num período de
obscurantismo.
Parte
3: Branco de alma negra
No
final dos anos 60 e início dos 70, roqueiros, principalmente ingleses,
passaram a tecer rasgados elogios a bluesmens,
que tratavam como Mestres. Em entrevistas de bandas como Rolling Stones,
os nomes de BB King, Muddy Waters e John Lee Hooker eram citações
esperadas.
Surge
neste contexto, a terceira geração do Blues ou Geração do Pós-guerra, em que se destaca o nome de Buddy Guy. A
partir daí, o mundo passou a descobrir o Blues.
Nas
décadas de 70 e 80, o mundo passou a reverenciar o Blues. Os velhos
bluesmens, agora chamados de Mestres
do Blues passaram a fazer shows constantes e gravar discos
regularmente, ao mesmo tempo em que jovens músicos começaram a
dedicar-se exclusivamente a tocar Blues, embora com uma “roupagem” e
uma “pegada” mais contemporânea, mas não menos competente.
Neste
momento o Blues deixa de ser uma música exclusivamente feita por negros e
passa a ser criada por músicos que tenham a alma
negra do Blues. Como disse Jimi Hendrix: “todo mundo tem algum tipo
de Blues para oferecer, seja você negro, branco ou roxo”.
24/11/2006
* Professor de História, músico e
fanzineiro
Imprima este artigo
|