|
Reflexões acerca da
prática do ensino de História na 5ª série do Ensino Fundamental
Adailson -
P.L.U.R.*
“A
educação além de ser um ato de amor é um ato político”
( Paulo Freire)
Antes
de apresentar algumas reflexões sobre a prática do ensino de História,
gostaria de agradecer aos alunos e alunas de turma 502 da escola Castro
Alves, que me acolheram com imenso carinho e entusiasmo. Também agradeço
ao professor Denilson (professor de história da turma) que contribuiu com
sua experiência e amizade para a construção deste trabalho[i].
A
experiência de prática de ensino na quinta série do ensino fundamental
é sempre desafiadora, pois o mundo em que os alunos de uma quinta série
são jogados é bem diferente do que estavam acostumados nas séries
iniciais. Esse momento torna-se uma fase de transição complexa e de difícil
adaptação para os alunos (situação que ocorre em muitas escolas). Isso
significa que o educador deve estar atento ao planejar seu trabalho junto
a esses alunos.
Ao
entrar em contato com o estudo de história e construir seu aprendizado,
os alunos já trazem uma série de experiências vividas, o que deve ser
considerado amplamente na elaboração de uma prática transformadora. Um
saber construído de forma que os alunos possam sentir-se integrantes e
agentes de uma sociedade humana que vive diferentes processos históricos.
Escola,
educação e teoria
A
complexidade do mundo contemporâneo exige o aperfeiçoamento permanente
do método pedagógico adotado em sala de aula, bem como este deve estar
articulado com o projeto político pedagógico da escola. Os educadores
tendem a concordar que os princípios pedagógicos de pensadores da educação
- como Jean Piaget , Lev Vygotsky e Paulo Freire – não se aplicam totalmente aos alunos da
sociedade contemporânea. Na prática, as escolas brasileiras adotam um método
pedagógico que se apropria das teorias desses filósofos da educação,
mas, na verdade, um grande número de escolas ainda apresenta modelos
pedagógicos tradicionais, que são eficientes a uma sociedade que é
movida por interesses econômicos. A partir das observações e
conversando com os colegas professores, pude perceber que, embora alguns
tenham demonstrado grande preocupação com questões pedagógicas, a
maioria não tinha conhecimento sobre o Projeto Político Pedagógico (PPP)
e, tão pouco, sua importância no ensino. Aparentemente, esse cenário é
caótico, mas na verdade demonstra uma educação que perpetua as
desigualdades e a acomodação. Mais do que simplesmente fazer por fazer,
enquanto educadores, devemos compreender a necessidade de pensar a educação,
pois o ato de aprender é, acima de tudo, libertador e transformador. O
trabalho do professor deve buscar uma firme relação entre o pensar e o
fazer, portanto, teoria e prática. Assim, se pode perceber que é
fundamental na formação de professores a construção de um arcabouço
teórico que permita coerência com o fazer pedagógico. Nesse sentido a
escola, a partir da mobilização da comunidade escolar, articulada com os
setores pedagógico e administrativo, deve construir um PPP que possa
amplamente orientar os professores em seus planejamentos, bem como suas
praticas pedagógicas.
Segundo
Jean Piaget (1978), o papel do professor é compreender e respeitar o nível
de desenvolvimento de cada criança, em esforço permanente para não ir
além de suas capacidades, nem deixá-la agir sozinha, mas oferecendo
instrumentos para que ela possa construir o conhecimento. Para Piaget, o
desenvolvimento cognitivo da criança é fruto da sua interação com o
mundo físico e social (Piaget,
Jean. O nascimento da inteligência da criança, Zahar. 1978). No
caso, alunos da 5ª
série, exigem
que a relação ensino-aprendizagem seja construída a partir de situações
concretas. Por exemplo: quando tive que explicar aos alunos sobre a relação
entre as pedras e os seres humanos que viviam no período Paleolítico,
utilizei um celular de uma aluna, que estava sobre a mesa. Pedi aos alunos
que pensassem sobre a relação entre uma pedra e um celular. Pensaram
alguns minutos sobre a questão e passaram a responder. A aluna Claudiele
(12 anos) disse não ter “nada a ver uma coisa com outra”. O aluno
Bruno (12 anos) concordou e, ainda completou dizendo que “não dá para
telefonar numa pedra”. Perguntei à turma se concordavam com os colegas,
a maioria concordou. Uma aluna, Juliana (11 anos), disse que a pedra era
um instrumento utilizado na idade da pedra. Pedi aos alunos que lembrassem
dos instrumentos utilizados pelos homens do Paleolítico (lembrei do texto
e das imagens que analisamos). Falei aos alunos que a pedra servia como um
instrumento criado pelos seres humanos para suprir uma necessidade, no
caso, a pedra era utilizada como instrumento cortante na caça e,
posteriormente, no corte da carne do animal caçado, que serviria para
alimentar o bando. Portanto a pedra, no período Paleolítico era uma
tecnologia, da mesma forma que o celular, atualmente, também é uma
tecnologia, pois permite que milhares de pessoas se comuniquem no mundo.
É
interessante comentar que outras questões foram trazidas a partir das dúvidas
dos alunos. A questão das
necessidades que os seres humanos tinham no passado e as que temos
atualmente; todas as pessoas tem acesso às tecnologias atuais? Os homens
e mulheres do Paleolítico não eram inteligentes? Quais
os impactos do desenvolvimento tecnológico sobre a sociedade humana?
Essas
questões possibilitaram uma discussão orientada bastante rica e
demostrou que a História, mais do que entender o passado, significa
pensar o presente. Vygotsky escreve que “a trajetória da evolução
intelectual é resultado de uma interação permanente de processos
internos com as influências do mundo social” (Lev
Vygotsky, 1991). O mundo social deve estar presente na relação
ensino-aprendizagem e os professores devem orientar sua prática nesse
sentido. À escola cabe organizar seu PPP de forma que esse princípio
seja amplamente contemplado.
Segundo
Paulo Freire (1987), não há educação neutra; para libertar as classes
oprimidas, é preciso promover uma efetiva troca entre professores e
alunos. Freire combatia o que chamava de "educação bancária",
sistema por meio do qual o professor simplesmente despeja conhecimentos
sobre o aluno, gerando alienação. Democracia no âmbito da escola é um
conceito-chave na pedagogia de Paulo Freire. Alunos devem ter voz ativa no
grupo, assim como professores e, sobretudo, a comunidade na qual a escola
está inserida. Para Freire, antes de ensinar a ler e a escrever, a escola
tem a missão de fornecer elementos para que a criança possa "ler o
mundo" (Pedagogia do Oprimido, Paulo
Freire,1987).
Ler
o mundo a partir da História, entender-se no mundo a partir da História,
agir sobre o mundo como um ser histórico, são tarefas importantes que
devem estar presentes no trabalho do educador.
Ao
trabalhar com a turma 502 procurei estabelecer uma relação com os alunos
que teve como base o respeito. A relação professor-aluno está
impregnada de poder, essa relação de poder não pode se dar de forma
vertical, o professor não é centro, na verdade não existe centro, o que
existe é a construção do saber, o caminho que se constrói, com o
aluno. Nesse sentido o professor deve respeitar o saber que é trazido
pelos alunos para a sala de aula. O professor deve dar significado ao seu
papel na sala de aula, os alunos devem entender a importância de estarem
ali em sala de aula, devem compreender o sentido libertador do ensino. A
relação de poder ganha um sentido democrático e não autoritário, o
respeito torna-se uma relação que contribui no processo de
ensino-aprendizagem. Essa relação não se dá de forma automática, deve
ser construída no dia a dia da sala de aula. A convicção do papel
transformador do ensino deve orientar o educador.
Assim,
ao afirmar que não há educação neutra, Freire está nos dizendo que a
inércia pedagógica, o autoritarismo, o engajamento pedagógico, a
liberdade, dos professores são atos políticos. Cabe ao educador saber a
medida e a importância de seu poder (destruir ou construir aprendizagem)
diante de uma sala com quarenta alunos.
AVALIAÇÃO
Durante
esse processo de prática de ensino de história que vivenciei na turma
502 tive oportunidade de refletir sobre a avaliação.
Em
primeiro lugar, temos que considerar que a avaliação deve ser coerente
com os princípios epistemológicos que sua pedagogia propõe. Em segundo
lugar, avaliação também é uma forma de poder que pode construir ou
destruir uma efetiva relação ensino-aprendizagem.
Confesso
que esse problema apresentou-se complicado. Os alunos da turma já estavam
condicionados a uma avaliação que me pareceu um pouco sem sentido, fruto
das práticas (fortemente tecnicistas) da maioria dos professores. Numa
conversa com o professor Denílson, comentei que seria complicado fazer
avaliação (o professor também percebeu esse problema, já que é o
primeiro ano que os alunos têm aulas com ele). Nesse sentido procurei
valorizar alguns aspectos que percebi fundamentais: a participação dos
alunos nos trabalhos realizados; a produção textual das impressões dos
alunos; a possibilidade de integração dos alunos; a história no dia a
dia dos alunos. No decorrer de sua prática o professor deve estabelecer
objetivos coerentes com sua pedagogia, conseqüentemente, a avaliação
também deve ser coerente, levando em consideração os aspectos
cognitivos, sociais e culturais. É preciso incentivar e estar atento à
evolução das argumentações dos alunos, na produção textual, nas
respostas às questões das provas ou outros exercícios, bem como suas
colocações verbais. Relacionar informações, acontecimentos e debates
no sentido de enriquecer conceitos e pensamentos a partir de diversas
modalidades de avaliação. Não se deve estabelecer um único padrão que
seja aplicável a todos os alunos, bom senso é importante.
Como
educadores acompanhamos as angústias e os desafios de nosso tempo no
sentido de construir um mundo que possibilite às pessoas democracia e
igualdade sócio-econômica plena. Portanto, nos posicionarmos contra as
injustiças a partir da construção de uma História crítica,
libertadora e transformadora, dentro e fora da sala de aula, é uma
postura fundamental ao professor de História.
Que
educação queremos e fazemos em sala de aula? O saber que eu transmito ou
organizo em sala de aula é resultado de minha postura conservadora ou
inovadora? Minha prática pedagógica é liberal ou progressista? O que
eu, como professor, pretendo com a educação que pratico ou exerço?
A
partir dessas questões acredito que o fazer pedagógico tanto no ensino
fundamental quanto no ensino médio deve levar em consideração um
questionamento sobre as práticas pedagógicas cotidianas e as concepções
dos professores sobre seu papel na sociedade. Deve-se refletir sobre as
contradições e os dilemas presentes no dia-a-dia dos professores tendo
como base um projeto político crítico e democrático para a escola pública.
Ao
professor cabe um papel de importância ímpar à sociedade: pensar e agir
no processo de ensino-aprendizagem de maneira que promova aos alunos a
oportunidade de construir sua autonomia (no sentido freiriano) e o pleno
exercício da cidadania. Seu aprendizado deve lhe proporcionar, acima de
tudo, a inquietude diante dos problemas produzidos pela própria
humanidade.
A História
não é um fim e sim um meio. Encarada dessa forma a História ganha um
caráter dinâmico e fundamental à sociedade, deixamos ser apenas aqueles
que olham para o passado e nos tornamos agentes do presente.
Enfim,
como resultado do processo de prática de ensino de História na 5ª série
do ensino fundamental, pude perceber que a realidade do ensino público
ainda é um grande problema a ser enfrentado pelos governos. A falta de
estrutura, a desvalorização profissional, a ineficácia ou inexistência
de parâmetros pedagógicos, essas questões ainda estão em aberto. Mas o
que mais me preocupou foi o estado de inércia de muitos professores em
relação às questões pedagógicas e sócio-culturais presentes na relação
ensino-aprendizagem. Realmente é preocupante quando educadores não tem
conhecimento da importância social e cultural de seu trabalho e acabam
simplesmente garantindo a reprodução de uma sociedade desigual.
Portanto, para quem está iniciando uma caminhada na educação, muito
trabalho há por fazer.
[i]
O presente texto (modificado)
é apenas parte de relatório sobre a prática do ensino de história
no ensino fundamental realizado pelo professor.
Bibliografia
DIAS-DA-SILVA,
M.HELENA G.FREM. Passagem sem rito; As 5ª séries e seus professores.
Campinas , SP: Papirus, 1997.
FREI
BETO, Essa escola chamada vida.
SP: Ática, 1985.
FREIRE,
Paulo, Pedagogia do Oprimido.
RJ: Paz & Terra, 1987.
VYGOTSKY,
Lev. A formação de conceitos científicos
na infância. In: Pensamento e
linguagem. 3. Ed. SP: Martins Fontes, 1991
Educação e Mudança. RJ: Paz & Terra, 1979, p 32-33.
25/08/2006
* Professor de História
e Geografia da rede pública estadual e DJ
Imprima este artigo
|