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A
PALESTINA DOS CONFLITOS
Adailson Luis
Lopes Rodrigues*
Diariamente somos
informados pela mídia sobre os conflitos entre israelenses e palestinos.
Para a maioria da população é difícil entender tamanha carnificina que
está ocorrendo na região. A complexidade da situação encontra-se em raízes
históricas que envolvem questões religiosas, étnicas, políticas e
econômicas. Um olhar mais atento sobre algumas dessas questões se faz
necessário diante de um conflito que produz, cada vez mais, mortes de
pessoas inocentes – já são 270 crianças mortas. Nos próximos artigos
pretendo trazer alguns elementos desse conflito que, embora distante, nos
causa perplexidade diante dos fatos.
Um
território sagrado
O Oriente Médio sempre passou por
momentos de tensões, não somente entre os grupos étnicos que lá se
estabeleceram, mas também entre as potências do mundo ocidental. Um dos
aspectos mais relevantes em relação ao território é o fato de a região ser
sagrada para três grandes religiões: o judaísmo, o islamismo e o
cristianismo.
Os Hebreus – povo semita
que deu origem aos judeus – ocuparam a região da Palestina por volta de
1250 a.C., e eram seguidores dos dogmas do judaísmo, religião
que dizia serem eles o povo escolhido para habitar a Terra Prometida
(Palestina). Mais tarde foram subjugados pelo Império Romano.
No século VII a Palestina
foi conquistada pelos muçulmanos – adeptos da crença em Alá, e na palavra
do profeta Maomé a partir do livro sagrado, o Alcorão.
A região também é
considerada sagrada para os cristãos, pois lá Jesus Cristo teria
profetizado raízes do cristianismo.
O aspecto religioso e
sagrado da região, embora relevante, não pode ser entendido como
determinante do conflito. Durante muito tempo as nações árabe-muçulmana e
a judaica conviveram em paz – aproximadamente 12 séculos.
A
influência que vem de fora
No final do século XIX,
diante do neocolonialismo e do imperialismo europeu, a região passou a ser
dominada pela França e Grã-Bretanha. Durante muito tempo as comunidades
judaicas da Europa sofreram com os preconceitos e as idéias anti-semitas.
No final do século XIX os judeus iniciaram movimentos políticos e
religiosos de autoproteção, como o Sionismo – pregava a volta dos judeus à
Palestina. Isso provocou uma imensa migração de judeus a Palestina,
formando comunidades que passaram a lutar pela formação de um
Estado-judaico.
Com o interesse
geopolítico e econômico no Oriente Médio e de barrar a expansão alemã, a
Inglaterra, promoveu a ajuda aos judeus na criação de um Estado-judaico na
Palestina. Isso aconteceu sem consultar os líderes árabes que controlavam
a região, o que gerou um grande descontentamento da população
palestina-árabe e, na sua maioria, muçulmana. A partir de 1930 milhares de
judeus migraram à Palestina, promovendo o aumento das tensões entre árabes
e judeus.
O interesse inglês no
petróleo árabe – foto que também ocorria com os EUA – levou a Inglaterra a
prometer a formação de um Estado-palestino, o que estimulou a
instabilidade. Os confrontos entre árabes-palestinos e judeus ficaram mais
frequentes. Em 1947 a ONU criou um Estado judeu, dividindo a Palestina
entre dois povos. Jerusalém, por reunir símbolos sagrados do judaísmo, do
islamismo e do cristianismo, foi considerada área internacional.
O Estado de Israel
nasceu sobre forte apoio dos Estados Unidos, o que provocou uma forte
reação dos estados árabes (Egito, Líbano, Síria, Jordânia e Iraque). Em
1948 ocorreu a Guerra Árabe-Israelense, tendo como vitoriosos os
israelenses e a expulsão de um milhão de palestinos da região.
Com o apoio dos EUA
Israel se tornou mais forte. Os palestinos formaram a OLP (Organização
para a Libertação da Palestina), sob a liderança de Yasser Arafat. O
cenário de tensão se ampliou em 1967, com a Guerra dos Seis Dias, quando
Israel ocupou os territórios da Cisjordânia e Jerusalém, além de Gaza;
tomou as Colinas de Golã e da Síria. Terras palestinas passaram a ser
controladas exército israelense.
Em 1973, os países
árabes atacaram Israel no dia do Yon Kippur (Dia do Perdão). Com o apoio
norte-americano, Israel continuou ocupando os territórios. O terrorismo
passou a ser usado pela OLP, como forma de obter suas terras de volta.
Em 1987, foi promovida
a Intifada (insurreição), civis palestinos passaram a combater o Estado de
Israel, revoltando-se contra a instalação de comunidades judaicas e contra
as proibições impostas pelos judeus. O grupo radical HAMAS acabou
controlando esse movimento e assumiu o poder. Isso não interessava aos
judeus e nem a OLP, pelo caráter mais radical do Hamas. A OLP, em 1993,
cedeu a pressão e Yasser Arafat participou do Acordo de Paz com Israel ,
fato que teve apoio do então presidente dos EUA Bill Clinton. Acordos
posteriores foram assinados, determinando áreas autônomas palestinas em
Gaza e na Cisajordânia.
Em 1995, o primeiro
ministro de Israel, Ytzak Rabin foi assassinado por um fundamentalista
judeu, mostrando que as facções radicais de ambos os lados continuariam
com os confrontos.
O início do século XXI
parecia abrir caminho para a paz na região, mas as negociações fracassaram
e uma nova intifada ocorreu. O líder do partido de direita LIKUD – partido
conservador de Israel – Ariel Sharon, acusado de exterminar árabes em
confrontos anteriores, assumiu o comando de Israel, os conflitos
aumentaram. Ataques suicidas palestinos e a repressão militar israelense
provocaram centenas de mortes de palestinos e judeus. Esse cenário
conduziu a Palestina e, principalmente Israel, a uma grave crise
econômica.
A partir desse breve
cenário histórico, podemos concluir que alguns aspectos são fundamentais
no entendimento da situação que vivem palestinos e judeus:
- a questão religiosa, embora importante, não pode servir como único
fator no entendimento do conflito;
-
na sua formação a Palestina passou por processos históricos –
invasões, questões religiosas, questões políticas e econômicas que foram
produzindo um cenário de complexidade, potencializado pelos interesses das
nações ocidentais a partir do século XIX;
-
o fundamentalismo político-religioso é um problema na região. A
intolerância já promoveu a morte de milhares de pessoas inocentes;
- nesse momento de tensão, qual a força da ONU? A ONU defende os
interesses de quem?
- A incapacidade da
humanidade em conviver com a diversidade cultural ainda é um paradigma
para o século XXI.
29/01/2009
* Professor de História
e Geografia da rede pública estadual
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