NEGRITUDE,
PAN-AFRICANISMO E A DESCOLONIZAÇÃO EXCLUDENTE DA ÁFRICA
PÓS 1945
Adailson - p.l.u.r. *
O
cenário em que o continente africano está inserido na atualidade é
resultante de processos históricos que se aprofundaram no século XX. O
neocolonialismo aprimorou suas formas de exploração às colônias
africanas, resultado das disputas imperialistas entre europeus e o
crescente imperialismo norte-americano. As duas grandes guerras que
eclodiram, a reorganização e aceleração do capitalismo de um lado, a
emergência de sociedades influenciadas pelo socialismo/comunismo de
outro, são exemplos desse contexto. Nesse sentido, a descolonização da
África, que se acentua no pós-45, é influenciada tanto pelo interesse
dos conglomerados capitalistas, em choque com as políticas dos impérios
coloniais, quanto pelos interesses das emergentes nações socialistas
(URSS e China), num crescente clima de Guerra Fria.
Já
internamente, os processos de libertação na África estiveram associados
à forte influência das elites locais estrangeiras, no sentido de
desvincular-se dos interesses metropolitanos e tomar as rédeas da exploração
local. Também estiveram caracterizados por forte cunho nacionalista dos
próprios nativos empenhados em libertar-se do jugo colonialista
(nacionalismo que apresentou-se difuso em conseqüência da diversidade
política, social e cultural em que as colônias se apresentavam).
Mesmo
com a eclosão de movimentos revolucionários, na maioria das colônias, o
processo de descolonização proporcionou apenas processos políticos de
emancipação, não atingindo um patamar infra-estrutural, pois a dominação
e a subordinação econômica permaneceu travestida em neocolonialismo e
pressionada pelo contexto da Guerra Fria.
A
luta pela autodeterminação da população colonial negra trouxe ao cenário
político-cultural do continente africano dois elementos importantes: o movimento
de negritude e o pan-africanismo.
Tendo
como princípios a valorização da identidade e da humanidade dos negros,
a Negritude foi promovida pelos
escravos das Antilhas francesas e movimentos de estudantes e literários
de Paris . O termo "Negritude" aparece pela primeira vez escrito
por Aimé Césaire, em 1938, no seu livro de poemas, "Cahier
d'un retour au pays natal". Segundo Léopold Sédar Senghor
(senegalês), maior representante desse movimento, o negro é feito de emoção
(elemento essencial em sua constituição), nesse sentido a valorização
de suas manifestações culturais tornam-se essenciais na luta contra o
racismo.
O
movimento de negritude nasce em meio à necessidade dos europeus, no período
colonialista iniciado no século XV, de manifestar a suposta inferioridade
dos negros, desvinculando-os de qualquer capacidade intelectual por serem
supostamente primitivos. Essas idéias de caráter alienante provocaram
nos intelectuais negros do século XX a necessidade de combater essa visão.
Segundo esses intelectuais, os negros poderiam passar a aceitar o
preconceito. Assim, a Negritude afirmava que o homem negro era tão homem
quanto qualquer outro, e que havia realizado obras culturais de valor
universal, às quais os que empunhavam a negritude queriam ser fiéis.
Mesmo tendo influenciado
diretamente os processos de libertação da África, o movimento Negritude
recebeu críticas, sendo considerado conservador e de “confirmação da
teoria racista das diferenças genéticas”[i],
um “racismo ás avessas”. No contexto da descolonização, o movimento
representou um ato político de luta pela afirmação e independência
africana.
"Senhor Deus, perdoa a Europa branca. A verdade, Senhor, é que
durante quatro séculos de luzes ela lançou às minhas terras a baba e o
ladrar dos seus molossos.
E a França: Que também ela trouxe a morte e o canhão às minhas aldeias
azuis, que pôs os meus uns contra os outros como cães à disputa de um
osso."
(
Léopold Senghor)
O
Pan-africanismo caracterizou-se como um movimento cultural que buscava a
igualdade de direitos e a melhoria das condições morais, intelectuais e
materiais das populações submetidas ao colonialismo. O termo surgiu pela
primeira vez em 1900, na Conferência de Londres. Inicialmente, tomou a
feição duma simples manifestação de solidariedade fraterna entre
africanos e pessoas de ascendência africana das Antilhas Britânicas e
dos Estados Unidos da América. Seu principal representante foi W.E.B.
Dubois, sociólogo negro dos Estados Unidos. Em sua longa evolução,
apareceu como um movimento racial, como um movimento cultural e como um
movimento político. Nesse sentido, o Pan–africanismo enriqueceu a luta
de libertação da África, assumindo um caráter anti-imperialista e
aproximando-se do socialismo.
Basicamente,
a idéia de uma união de todas às nações africanas teve como obstáculo
a diversidade étnica e cultural do continente (várias Áfricas). Esse
problema foi potencializado pelo processo de colonização europeu, que
explorou esse cenário de tribalização, o que dificultou a construção
de uma identidade africana na segunda metade do século XX.
O
processo de descolonização da África trouxe a emancipação política
para muitas colônias mas, de forma alguma, levou essas sociedades a uma
ruptura com o sistema. Na verdade, elas foram inseridas no sistema com um
papel periférico e excludente. O processo de descolonização difuso e
subordinado jogou os povos africanos em gravíssimos problemas sociais,
políticos e econômicos, inclusive influenciando e potencializando as
diferenças tribais que permanecem na atualidade. Os países surgidos da
descolonização na África não receberam investimentos que
desenvolvessem as economias locais e melhorasse a vida das populações.
Os recursos foram espoliados, a produção de subsistência foi
desestruturada e não ocorreu uma industrialização que lhes garantisse
autonomia econômica. Perante as economias globalizadas, o continente
africano entrou no século XXI ainda sobre a égide da exclusão,
resultado de séculos de exploração e preconceito.
[i] RIBEIRO,
Luís Dario. Descolonização da Ásia e da África. REVISTA DA FAPA,
nº 33/2001, pg. 82-84.
11/01/2006
*Professor de História e Geografia da rede pública
estadual e DJ
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