O MOLEQUE SARUÊ DA ESTAÇÃO PRIMEIRA

Adailson - P.L.U.R.*

No fim de semana passado o Brasil perdeu um dos intérpretes mais importantes da música popular, especificamente do samba e do carnaval. José Bispo Clementino dos Santos, o JAMELÃO, o moleque Saruê (como era conhecido quando pequeno), morreu aos 95 anos de vida na cidade Rio de Janeiro.

Falar de Jamelão significa percorrer a história do samba e do carnaval. Filho de lavadeira e de pintor, Jamelão, que foi jornaleiro, operário e policial civil, junto com Cartola e Carlos Cachaça (fundadores da Estação Primeira de Mangueira) fez das rodas de samba e da Mangueira seu refúgio e transformou, com sua voz metalizada, músicas de grandes compositores como Lupicínio Rodrigues (talvez o mas cantado por Jamelão) e Lúcio Cardim. Na Estação Primeira de Mangueira Jamelão se tornou um dos melhores interpretes do carnaval. Desde 1950 a Mangueira tornou-se sua maior paixão, foram carnavais inesquecíveis na voz do grande mestre. Quem não lembra de “Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira têm, de 1986 (Tem xinxim e acarajé tamborim e samba no pé...), ou o samba de 1988 “100 anos de liberdade, realidade ou ilusão?” (SERÁ... QUE JÁ RAIOU A LIBERDADE OU SE FOI TUDO ILUSÃO SERÁ...), ou “O Reino das Palavras”, de 1987 (É DOM QUIXOTE Ô É ZÉ PEREIRA É CHARLIE CHAPLIN NO EMBALO DA MANGUEIRA), todos sambas imortalizados na voz inconfundível de Jamelão.

O samba-canção na voz de Jamelão ganhou pérolas do cancioneiro popular. Cantando na noite carioca como crooner da famosa Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, músicas como “Dizem por aí”, de Althemar de Abreu (Dunga); “Exemplo” e “Esses moços”, de Lupicínio; “Folha morta” de Ari Barroso, ilustraram o que ficou conhecido como samba de “dor-de-cotovelo”cantado no voz do mestre. Foi na Orquestra Tabajara que Jamelão protagonizou um duelo com a Big Band americana de Tommy Dorsey, alavancando sua carreira à Europa.

Jamelão ficou conhecido também pela sua personalidade forte e pela resistência em valorizar as raízes do verdadeiro samba e dos sambistas. Ele sempre se anunciou como intérprete de samba enredo e não, como muitos chamam, “puxador” de samba. Para Jamelão o samba deveria ser cantado e não puxado (bom exemplo para os cantores dos grupinhos de pagode da atualidade). Para ele os carnavais de hoje viraram desfile militar, a bateria num rítmo frenético e os sambas não tem criatividade, os integrantes das escolas não sambam, marcham na avenida. Segundo ele, isso é um reflexo da televisão, que passou a determinar o tempo dos desfiles e virou correria. Jamelão, como muitos artistas negros, sofreu o preconceito racial de perto, sempre disse que “o artista negro sempre enfrenta uma barra mais pesada. No meio musical todo mundo quer o crioulo, mas para fazer figuração, para tocar pandeiro e agogô e as mulatas para sambar. Para ser estrela não serve, tem de ser branco e de preferência boa pinta. Não grito contra isso porque sei que as pessoas que hoje me desprezam amanhã vão me amar. Mas já fui deixado de lado em função de outros caras só porque eles eram brancos".

Com certeza o cenário musical brasileiro perdeu um de seus maiores cantores, o samba e o carnaval perderam um de seus maiores expoentes. O que fica é a história de vida e o amor de um artista popular pela sua escola de samba e pela valorização da música popular brasileira. Jamelão construiu sua história com dignidade e muita luta, sua trajetória de vida é a própria história do samba e do carnaval, dois exemplos da diversidade e da riqueza cultural do Brasil. Jamelão tornou-se um porta-voz (e que voz!) dessa riqueza cultural, pois, ele sabia, como outros sambistas de raiz, que O SAMBA É SÁBIO e quem está com ele está num caminho certo.

Jamelão foi cantar seus sambas junto a outros mestres, com certeza Donga, Pixinguinha, Ataulfo Alves, Elisete Cardoso, Cartola, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Zé Kéti, João Nogueira e outros, devem estar o recebendo com os grandes sambas que o próprio Jamelão imortalizou.

DESCANSE EM PAZ MESTRE!
(referências: Almanaque do samba /André Diniz)

25/06/2008

* Professor de História e Geografia da rede pública estadual e DJ

Imprima este artigo