Em 1798
foi publicada na Inglaterra a primeira versão de um livro polêmico,
intitulado “Ensaio sobre o Princípio da População”. O autor Thomas Robert
Malthus, pastor da Igreja Anglicana, escreveu sobre a relação entre o
crescimento populacional e a produção de alimentos entre final do século
XVIII e o início do século XIX. Num período de pleno desenvolvimento da
Revolução Industrial, as cidades européias se tornavam focos de forte
crescimento populacional, conseqüência do intenso êxodo rural e da
elevação das taxas de crescimento vegetativo. Nesse cenário, Malthus
teorizou que a miséria é causada pelo descompasso entre o crescimento
populacional e a produção de alimentos. Segundo ele, a população tem a
tendência de crescer de forma geométrica (1,2,4,8,16...) a cada 25 anos. A
produção de alimentos só poderia crescer de forma aritmética
(1,2,3,4,5...). Assim a população do planeta estava fadada à
miserabilidade.
A
teoria malthusiana influenciou grande parte do pensamento ocidental e até
hoje está presente em nossa sociedade. Primeiramente, a teoria
enfraqueceu, pois a Revolução Industrial, tanto na Europa quanto nos EUA,
revelou-se dinâmica e, inversamente ao que Malthus escreveu, aumentou a
produção de alimentos, principalmente na agricultura. Em segundo lugar
Malthus jogou toda a culpa da pobreza sobre os pobres. Num momento em que
a exploração do trabalhador assalariado tornava-se base do acúmulo de
capital, Malthus tirou um tremendo peso da consciência das elites, tanto
comerciais quanto industriais, os pobres são culpados pela sua
pobreza. Não são os pobres que têm muitos filhos? Portanto, como
um trabalhador assalariado da indústria pode sustentar uma prole de seis
filhos? Deveria só ter um! Assim poderia sustentá-lo! Tudo bem, você é
malthusiano e não sabia!
O autor
propôs um controle moral da natalidade, principalmente para os pobres. As
famílias carentes deveriam ser orientadas a não terem filhos, as pessoas
deveriam casar-se mais velhas e procurar abstinência sexual.
A
partir da segunda metade do século XX, os países do então chamado Terceiro
Mundo, passaram pelo que ficou conhecido como “Explosão Demográfica”
(algumas regiões do planeta ainda vivem essa fase). Esse fenômeno foi
conseqüência da queda das taxas de mortalidade dos países subdesenvolvidos
em função da evolução da medicina e da Revolução Médico Sanitária
atrasada. Paralelamente, as taxas de natalidade dos países pobres
permaneceram elevadas, provocando um elevado crescimento populacional do
planeta. Surgiram os neomalthusianos que, assim como Malthus, culpavam os
pobres pela sua própria pobreza e viam a solução no controle de natalidade
através de métodos científicos (ligadura de trompas, DIU, Vasectomia,etc).
A teoria neomalthusiana relaciona crescimento populacional com crescimento
econômico (PIB percapta). Segundo ela, um país que tem um elevado
crescimento vegetativo teria uma renda percapta reduzida, conseqüência do
elevado contingente populacional. Pois bem, ao considerar que a
distribuição de renda de um país só se dá através da redução do
crescimento populacional, os neomalthusianos acabam simplificando o
problema. Podemos ser ingênuos e acreditar que num passe de mágica o
controle de natalidade possa promover igualdade sócio-econômica? Ao meu
ver, a prática do controle populacional é um engodo, pois desloca a
discussão sobre as causas efetivas da pobreza no planeta. Controle de
natalidade é filhote de totalitarismo, seja ele no mundo capitalista ou no
mundo socialista. Até mesmo as chamadas “democracias” do mundo capitalista
adotam essa faceta antidemocrática. O interessante é que a partir da
década de 60 as instituições do mundo rico passaram a levantar a bandeira
do controle de natalidade, já que a solução estava no controle da
natalidade dos pobres. Instituições de países ricos e governos de países
subdesenvolvidos passaram a estimular o controle populacional com a
distribuição de pílulas anticoncepcionais, ligadura de trompas,
vasectomia, etc. Em alguns países isso foi feito de forma radical, como é
o caso da Índia, que estabeleceu na década de 70 prisão ou multas para
famílias com mais de três filhos.
CENA
Você
está no ônibus sentado na terceira poltrona.
O
ônibus para na parada 46 (Alvorada), pelo vidro da janela você vê uma
mulher, aparentando uns trinta e cinco anos, com uma criança pequena (deve
ter uns dois meses) no colo e mais duas crianças, uma menina e um menino
aparentando entre sete e oito anos.
A
mulher e as crianças se aproximam da porta da frente do ônibus.
O
motorista abre a porta.
Ela pede para entrar pela porta da frente, pois não tem dinheiro para
passagem e precisa levar o filho menor, que tem asma, ao hospital de
Alvorada.
Você observa a cena. Olha ao seu redor. Percebe que as pessoas ao seu lado
se sentem incomodadas. Você está incomodado!
Ao terminar a cena você pensa: “- também, ninguém mandou fazer um monte de
filhos, por isso que é pobre.”
Alvorada, assim como
centenas de cidades no Brasil, vive o drama da explosão da violência
urbana e parece que os malthusianos de plantão resolveram aproveitar o
momento para divulgar a solução mágica: controle de natalidade, essa é a
solução!
De
fato, nossa cidade possui um dos maiores índices de crescimento
populacional do RS, resultado dos altos índices de natalidade e em grande
parte do intenso processo de migração do interior do Estado para a região
metropolitana de POA. Ironicamente, nos últimos dias, nosso secretário
estadual de segurança pública afirmou que o problema da violência é
social. Será que ele foi descobrir isso somente agora? Será que a
violência que explode em Alvorada não é motivo para abrir uma CPI da
segurança pública? (parece que estão fazendo uma para inglês ver).
Tudo
bem, vamos distribuir milhares de pílulas nas vilas, esterilizar as
mulheres pobres, fazer vasectomia nos homens, afinal, com um salário
mínimo de R$ 300,00 um casal que tem apenas um filho consegue viver uma
vida maravilhosa!
Temos
como exemplo países da Ásia, da América Central e da África que
recentemente adotaram o controle de natalidade com os pobres e não
superaram o problema da miséria e conseqüentemente da violência urbana. Em
seu livro “A ideologia da pílula” o professor Igor Moreira cita o caso de
Porto Rico, que adotou o controle de natalidade sobre a população pobre
(33% das mulheres são esterilizadas). Mesmo assim, pobreza e violência
ainda são os maiores problemas em Porto Rico.
O caos urbano de nossas cidades deve ser
encarado com mais seriedade, a violência urbana é um fenômeno que reflete
profundas diferenças sócio-culturais e a vergonhosa distribuição de renda
em que vivemos.
07/07/2005
* Professor de História e Geografia