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Zumbi Caçador de Negro
Mário Maestri
A proposta de existência
de escravidão em Palmares foi apresentada enfaticamente pela grande mídia
quando das celebrações do terceiro centenário da destruição da
Confederação e morte de seu último dirigente, em 1995. Seus objetivos eram
encontrar gancho para a abordagem do transcurso e dessacralizar
sucesso referencial do movimento negro e do mundo do trabalho,
naturalizando a opressão através da idéia de que os oprimidos também
oprimem, logo e quando podem.
Em 1995, a discussão
sobre a escravidão palmarina gorou apenas devido ao sucesso midiático do
bate-boca sobre a eventual homossexualidade de Zumbi. Desde então, a
afirmação retorna intermitentemente na mídia e em estudos
historiográficos, sem que se documentação histórica probatória seja
apresentada. Continuamos a contar somente com frágeis referências a
cativos que, libertados pela força pelos palmarinos, adquiririam a plena
cidadania apenas após recrutarem cativos para os quilombos.
Contribui igualmente para
essa despropositada afirmação a frouxidão conceitual e epistemológica
atual das ciências sociais, devido à quase geral renúncia à idéia do
passado como fenômeno objetivo capaz de ser reconstituído essencialmente
pela ciência histórica. A historiografia tem sido reduzida
a mera reconstituição literária do ocorrido e o passado, a realidade
maleável segundo os interesses do presente.
Saltos Lógicos
Na falta de documentação,
apóia-se a tese da escravidão quilombola na provável retomada de
práticas escravistas africanas nos mucambos da serra do Barriga. A
equação é simples: se na África tinha, por quê, diachos, não teria também
aqui? Destaque-se que a equação traz imbricada a velha apologia de que os
negreiros apenas transferiam os homens e mulheres de uma escravidão de
bárbaros para servidão cristã e civilizada na América. E sem nem mesmo
pagarem a passagem!
O
artigo “O enigma de Zumbi”, de Leandro Narloch, publicado na indefectível
Veja [19 de novembro], após lembrar que a idéia de Palmares
libertário surgiu nos anos 1960 e 70, sob “influência do pensamento
marxista”, afirma que, nos “novos estudos”, o “retrato que emerge de Zumbi
é o de um rei guerreiro que, como muitos líderes africanos do século XVII,
tinha um séqüito de escravos para uso próprio”. Folga dizer que o
jornalista se cuidou em não citar os referidos “novos estudos”.
A
defesa da escravidão palmarina apoiou-se no silogismo de que não haveria
sentido em falar “em igualdade e liberdade numa sociedade do século XVII
porque, nessa época, esses conceitos não estavam consolidados entre os
europeus” e seriam “impensáveis” nas culturas africanas. Corroborando a
proposta, o historiador Manolo Florentino, autor de livro de título
sugestivo – Paz na senzala –, reconstrói o passado a partir de
pinote lógico apoiado em premissas fajutas: “Não se sabe a proporção de
escravos que serviam os quilombolas, mas é muito natural [sic] que eles
tenham existido, já que a escravidão era um costume fortíssimo [sic] na
cultura da África.”
Servidão Doméstica
Por ignorância e oportunismo, os negreiros
identificaram como escravidão as múltiplas formas de servidão doméstica da
África pré-colonial. Prisioneiros de guerra, condenados da Justiça,
indivíduos sem famílias, estrangeiros etc., eram incorporados às famílias
extensas, com obrigações e direitos delimitados. Casavam, tinham bens,
integravam a comunidade e, em poucas gerações, extinguia-se a lembrança da
origem inferior. A posse comunitária da terra e o caráter
seminatural da economia impediam que tais formas de dominação se
degradassem na exploração escravista americana, regida pelo açoite de
mercado de fome pantagruélica. Identificar servidão africana e escravidão
colonial é procedimento analítico inaceitável.
O caráter
relativamente benigno daquela servidão devia-se em boa parte à
incapacidade e falta de sentido das sociedades domésticas africanas de
investirem substancialmente recursos na subjugação desses agregados.
Fenômeno ainda mais premente em comunidades de resistência, como os
quilombos, que dependiam do consenso para furtarem-se aos ataques
permanentes dos escravistas. É até interessante imaginar os mocambeiros
ocupados no combate aos escravistas e de olho nos seus cativos, para que
não se fugissem e se ... aquilombassem!
E, mesmo que a África
tivesse sido sociedade escravista – então, por que exportaria cativos? –,
deduzir instituições do Novo Mundo de instituições da África Negra é outro
tropeço epistemológico primário. Os quilombos palmarinos e todos os demais
foram instituições americanas, e não africanas, nascidas da oposição à
escravidão. Quando muito, e nem sempre, eles reelaboraram elementos
culturais africanos, já que era materialmente impossível restaurar, no
Brasil, a vida do continente negro.
Um Novo Mundo
Os próprios títulos
angolanos utilizados em Palmares – nzumbi, nganga nzumba,
etc. – ganharam no Brasil conteúdos diversos aos que tinham na África.
Nesse sentido, como já foi exaustivamente proposto, fenômenos como o
kilombo dos yagas, nos sertões da atual Angola, muito
pouco tem a ver, no essencial, com o fenômeno identicamente nomeado no
Brasil escravista.
Entre as inúmeras
sandices do escrivinhador da Veja, destaca-se certamente a pérola de que o
palmarino “não lutava contra o sistema da escravidão”. Proposta que reduz
aquela população e todos os quilombolas à situação de verdadeiros
energúmenos, já que viviam, apenas por querer, metidos na mata, em cima
dos serros, por entre cobras e lagartos, longe das maravilhosas praias de
areias brancas das Alagoas da época!
Desde os anos 1950, autores como Benjamin
Péret, Clóvis Moura, Édison Carneiro, José Alípio Goulart, Décio Freitas
empreenderam detidos estudos sobre as comunidades quilombolas que
realçaram as inevitáveis contradições entre os mocambeiros e o interesse
que tinham em manter-se distante dos escravizadores, sem perder a
possibilidade de estabelecer trocas com os mesmos. Tudo isso tem, já, no
mínimo, meio século de vida.
Sobretudo, esses e
tantos outros autores sugeriram e apontaram o que foi essencial e único na
experiência quilombola, nos limites determinadas pelas condições materiais
da época: seu caráter necessariamente libertário, já que eram comunidades
em contradição insuperável com a opressão escravista – desculpem-me por
ter escapado essa formulação marxista. Uma liberdade que se materializava
nas solas dos pés dos fujões e nos braços armados dos quilombolas, e não
em discussões conceituais sobre a igualdade e a liberdade cívica entre os
homens, em quimbundo ou latim!
27/11/2008
*Mário
Maestri, 60, é historiador e professor do Programa de Pós-Graduação em
História da UPF. E-mail:
maestri@via-rs.net
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