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Irã: O que está em jogo
Osvaldo Coggiola
Um levantamento, em defesa do candidato
presidencial Mir Hossein Moussavi e, sobretudo, contra a polícia e os
Guardas Revolucionários (pasdaran) do regime teocrático, se produziu
depois das eleições iranianas, em que Mahmoud Ahmadinejad foi oficialmente
declarado vitorioso, com 67-68% dos votos. As marchas com centenas de
milhares de pessoas foram seguidas de forte repressão promovida pela
polícia ou por integrantes de uma milícia islâmica, a Basij, uma numerosa
força paramilitar. Centenas de manifestantes foram presos, jornais foram
censurados, comícios foram proibidos e universidades foram fechadas. Uma
dúzia de manifestantes foi morta pelos Guardas Revolucionários, inclusive
três estudantes na cidade universitária (a Universidade de Teerã é o
centro da oposição anti-teocrática). Por trás da denuncia de fraude e da
defesa de Moussavi se manifestou a luta pelas liberdades democráticas e
contra as reacionárias leis teocráticas. Mas o descontentamento popular
também está sendo manipulado por um setor da burguesia, inclusive uma
poderosa ala do regime teocrático, com o apoio dos EUA. Para um
comentarista iraniano de esquerda “os pobres estão com Ahmadinejad e as
classes médias estão rachadas”.
A discussão sobre a “fraude” é em boa
parte ociosa, pois no Estado “islâmico” as instituições representativas,
eleitas em escrutínio eleitoral, estão subordinadas a instâncias
não-eleitas próprias à instituição religiosa, configurando um regime de
natureza bonapartista - teocrática. Os candidatos a qualquer cargo, do
presidente ao vereador, devem previamente ser aprovados pelo Conselho dos
Guardiães (composto por doze pessoas), instância não-eleita. Ou seja, as
próprias eleições têm uma base fraudulenta.
Ex-comandante militar paquistanês, o
general Mirza Aslam Beig disse que o serviço secreto paquistanês tinha
provas irrefutáveis de que os EUA trabalharam para tentar alterar o
resultado das eleições no Irã: "Há provas de que a CIA gastou 400 milhões
de dólares em território iraniano para fazer eclodir uma revolução
'pacífica', 'colorida', contra o governo dos aiatolás, imediatamente
depois das eleições".
Os jovens, em especial os mais instruídos,
são a vanguarda da mobilização contra Ahmadinejad. A população do Irã, que
era de 34 milhões na época da “revolução islâmica”, pulou para 70 milhões;
65% dela têm menos de 25 anos de idade. Esses jovens formam a população
mais instruída do país de todos os tempos, pois o índice de alfabetização
nunca foi tão alto, tendo passado de 59% para 82%, nos últimos vinte anos.
Mas 40% dos jovens estão desempregados. A hierarquia islâmica do Estado
tinha apelado, em fevereiro, antes do pleito, para o fato de que “as
eleições presidenciais de 2009 no Irã terão proporções épicas e
manifestarão que a nação iraniana está decidida a ser senhora de seu
próprio destino. O número muito alto de votos na eleição presidencial mais
uma vez fará prova do verdadeiro conceito de democracia religiosa”. O
comparecimento às urnas foi entre 82% e 84%, índice superior às eleições
prévias. Houve também manifestações em defesa da vitória de Ahmadinejad.
Com Moussavi, ex primeiro ministro da
República Islâmica durante a guerra contra o Iraque (1981-1989), que sumiu
politicamente durante duas décadas para reaparecer recentemente, está o
aiatolá Khatami, ex presidente "reformista" de direita e, também, um dos
pilares do regime teocrático, Hodjatoleslam Hashemi Rafsanjani, quem fez
enorme fortuna a partir do poder e impulsionou, junto à elite de novos
ricos, a “liberalização” econômica e a adaptação crescente às exigências
dos EUA e da UE, cujo presidente, além do francês Sarkozy e do líder
sionista Ehud Barak, coincidem no forte apóio a Moussavi, ele próprio
responsável pela violenta repressão contra a esquerda e a classe operária
na década de 1980. A União Européia excluiu de sua lista de organizações
terroristas o grupo chamado "People's Mujahedin of Iran" (MKO), armado
para cometer atentados no Irã.
O presidente norte-americano Obama não foi
tão longe, o seu governo está dividido, devido à pressão da direita do
Partido Democrata, dos “neocons” republicanos, e do lobby sionista, para
os que o levantamento iraniano, depois da recente vitória eleitoral da
coalizão pro-imperialista no Líbano, seria uma oportunidade para uma
mudança de regime “pro-ocidental” no Irã, condicionada militarmente, a
oeste, por um Iraque ocupado, e ao leste por um Afeganistão igualmente
ocupado. Não se deve esquecer que forças da coligação EUA – Israel –
Turquia, num estado de preparação avançada, têm realizado desde o começo
de 2005 diversos exercícios militares projetados contra o Irã, que se
mantêm em pé.
A política “neutra” de Obama levou em
conta, segundo um observador, “o efeito que suas palavras teriam em Teerã.
Uma palavra mal pensada, de um oficial do Departamento de Estado,
produziria reações e manifestações gigantescas de união nacional no Irã,
contra qualquer intervenção”. Outro comentarista apontou que “para os EUA,
há pouca diferença entre o suposto vencedor, Ahmadinejad, e o suposto
derrotado, Mir Hossein Moussavi, já que quem continuará dando as cartas
será o aiatolá [Ali] Khamenei [“Líder Supremo”, que controla todos os
poderes, e é por sua vez eleito por uma “assembléia” dos 86 membros da
hierarquia xiita]. A aposta de Obama é insistir na neutralidade agora para
retomar a aproximação entre EUA e Irã depois, na tentativa de brecar a
corrida do país pelo programa nuclear e de conter a ação de Teerã junto a
grupos extremistas da região. A estratégia fracassa se houver escalada na
violência interna, com aumento do número de mortos, feridos e presos. E
pode mudar se a avaliação da inteligência na região sugerir que há chance
real de mudança de regime - o que não é o caso até agora”. Ou seja, que
Obama apostaria, como na América Latina, na domesticação do regime
“hostil”, ou na quebra do nacionalismo “por dentro”, aproveitando suas
contradições.
A suposta re-edição da “revolução laranja”
(como em Belgrado, Kiev ou Georgia, que deu lugar a regimes pró-EUA), por
sua vez, está possibilitada pela política da ala “populista” do regime, em
torno a Ahmadinejad, incapaz de derrotar a ameaça imperialista: defendendo
com seus próprios meios, reacionários (incluída a repressão contra as
minorias curdas, azeris e árabes), a ordem capitalista “iraniana”, abriu
as portas para a liquidação da resistência anti-imperialista no Oriente
Médio, resistência acentuada depois da revolução iraniana de 1979.
A respeito da questão nuclear, disse
Afshin Rattansi, no Counterpunch, que “o programa nuclear satisfaz todos
os grupos [do Irã], exceto uns poucos intelectuais que só falam de energia
solar. (Ele) faz salivar os corruptos mais ricos, já antegozando a
perspectiva de nadar em lucros ainda maiores da exportação de petróleo. As
usinas nucleares fornecerão energia para uso local e doméstico; e sobrará
petróleo a ser exportado, para gerar dólares fora do Irã. Quanto ao
restante da sociedade civil, a energia nuclear é motivo de orgulho
nacional e abre caminho para criar algum tipo de arma nuclear, que será
útil quando Israel e suas ogivas atômicas afinal partirem, das ameaças, ao
ataque”. A defesa do programa nuclear unificou todas as correntes do alto
clero xiita, de linha “moderada” ou da “radical”, do ex-presidente Ali
Rafsanjani ao líder máximo espiritual (pela hierarquia islâmica mais
importante que o presidente), Ali Khamenei.
A atual frente “reformista” tem o apoio da
burguesia urbana e comercial iraniana, com um programa, não de real
democratização do Irã, mas de dar um fim à política econômica
inflacionária, iniciar recortes nos gastos sociais e nos subsídios aos
gêneros de primeira necessidade, e retomar o comercio internacional. A
frente é apoiada por setores da hierarquia religiosa, incluídos alguns
pasdaran, preocupados pela estabilidade do regime devido à sua política
econômica, e ao confronto com os EUA na questão nuclear. A esquerda
iraniana repetiu, ampliados, os erros do passado, quando subordinou-se a
Khomeini na revolução de 1979, subordinando-se à “frente popular” com a
“burguesia democrática”, no “Conselho da Resistência Iraniana”.
Bill Keller, editor executivo do New York
Times, o que não é pouco, disse que “os moderados (Moussavi) têm poucos
meios para contestar [a sua] derrota”: “Os otimistas no Irã e no exterior
precisam se perguntar se a alegre agitação que encheu as ruas nas últimas
semanas representava uma nova força popular ou apenas uma oportunidade de
extravasar tensões”, o que se parece bastante com um atestado de óbito
estendido à “oposição”. Para o Financial Times: “As dimensões reais do
apoio a Moussavi são impossíveis de avaliar, e Ahmadinejad conserva
popularidade - especialmente entre os radicais religiosos, os pobres e a
população rural. Mas as divisões na sociedade que foram expostas nesta
semana não irão desaparecer. Alguns comentaristas vêem a eleição como
golpe palaciano engendrado pela linha dura do regime, representada pelo
establishment militar que apóia Ahmadinejad. É difícil avaliar se a crise
vai desencadear um movimento de protesto mais amplo que possa abalar mais
profundamente a estrutura de poder, ou se levará à consolidação total do
poder nas mãos da linha dura. Moussavi... parece ter se deixado liderar
pelas ruas, que vêm se mobilizando para protestos mesmo quando ele divulga
um comunicado adiando uma manifestação. Parte da motivação dos protestos
não é tanto apoio a ele quanto rejeição a Ahmadinejad” (grifo nosso).
Afirmar, como o faz certa “esquerda” (chavista
ou reciclada no apóio aos “líderes providenciais”, depois do fim da URSS)
que as mobilizações anti-Ahmadinejad são pura manipulação do imperialismo
é ignorar o impressionante processo de acumulação de capital privado
desenvolvido pelo regime teocrático, em favor de setores entrincheirados
na hierarquia religiosa ou nos Guardas Revolucionários.
É o caso das grandes “fundações”,
destinadas à caridade para os pobres ou para os feridos da guerra contra o
Iraque, que “diversificaram suas atividades” hoje situadas na indústria,
no comércio, na agricultura, no turismo e até na aeronáutica, em
associação com o capital externo. Afshin Rattansi lembra que “o Irã abriga
o maior parque industrial de produção de veículos do Oriente Médio”, mas
esquece que o faz com empreendimentos conjuntos com o capital francês
(Renault e Peugeot-Citroën) em que este detém 51% do capital. Teerã e
outras cidades conheceram sua “bolha imobiliária”, que fez nascer, segundo
jornais iranianos, uma “nova burguesia imobiliária”. Os bancos
“nacionais”, afetados pela crise mundial, aumentaram, em um ano
(2007-2008) suas dívidas para com o Banco Central em... 106%. Ao lado do
enriquecimento de alguns “revolucionários”, os salários reais estão em
queda livre, ao mesmo tempo que aumenta a “prisão por dívidas” (que existe
no Irã) com doze mil presos no último ano, em geral pessoas modestas ("só"
20 mil haviam sido detidos por dívidas desde 1979). A evasão fiscal dos
empresários é geral. Com certeza, como afirma o mesmo autor, “os membros
da pequena-burguesia e da elite iraniana, a classe dos Bazaari, não
admitirão nenhum tipo de revolução nas políticas de impostos... A falange
dos MBAs pró Moussavi encorajará as loucuras de praxe da 'globalização' e
enfrentará a oposição de vários poderosos Bazaaris que querem mercado
fechado, nunca mercados abertos”, mas não por razões “antiimperialistas”.
Para o professor iraniano Ramine
Motamed-Nejad, passou-se, na revolução, “do caritativo ao lucrativo”:
“Contradizendo os ideais igualitários da revolução de 1979, as sanções
impostas aos mais modestos são acompanhadas pela incapacidade, ou pela
falta de vontade, do poder público para cobrar as dívidas (com o Estado)
da maior parte dos grupos econômicos”. E somos informados também que “os
sindicatos são cada vez mais ativos, no trabalho de agitar as fábricas da
República Islâmica”.
Em síntese: o novo é o início de uma
quebra da hierarquia islâmica, no poder desde 1979, e, sobretudo, o início
de uma mobilização popular contra o caráter reacionário do regime. A
repressão se valeu menos da “mobilização dos pobres”, e mais do uso de
aparelhos para-militares vinculados ao regime e à “nova burguesia”.
Defender a repressão do regime teocrático contra os estudantes é
criminoso, e duplamente criminoso quando feito em nome da “esquerda” ou da
“luta contra os EUA” (mas não contra Obama, né?). A mobilização estudantil
deverá encontrar canais independentes do setor tendencialmente
pró-imperialista que pretende usá-la para seus próprios fins. E a agitação
operária em defesa do salário e de suas condições de vida deverá encontrar
um programa próprio, de independência de classe – que o próprio clima de
luta criado pela mobilização citadina dos estudantes pode favorecer – para
unir-se com a juventude que defende a revolução e rejeita sua burocracia
capitalista. Por esta via, a revolução iraniana poderia recuperar, num
plano superior, seu papel aglutinante da luta antiimperialista em todo o
Oriente Médio, superando clivagens religiosas e étnicas, e expressando seu
autêntico conteúdo histórico: a revolução social.
11/07/2009
*Historiador
e professor titular da Universidade de São Paulo
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